(dr) Mark Thiessen / National Geographic

Reconstituição da face do Homo naled a partir do crânio (detalhe)

A recente descoberta de uma nova espécie humana na África do Sul tem suscitado uma acesa polémica em torno da teoria de um “sub-homem”, alimentando o racismo num país ainda com resquícios do “apartheid”.

“Ninguém vai desenterrar os velhos mitos dos macacos para apoiar a teoria de que sou descendente de babuínos”, indignou-se Zwelinzima Vavi, secretária-geral da poderosa confederação sindical sul-africana COSATU, aliado fiel do Congresso Nacional Africano (ANC, no poder).

Fui tratada como um babuíno toda a minha vida, tal como os meus pais e avós. Não sou filha de um orangotango, de um macaco ou de um babuíno. Ponto final”, escreveu Vavi na sua conta no Twitter, seguida por mais de 300 mil pessoas, e citada hoje pela agência France Presse.

Apesar de o regime de segregação racial ter sido abolido oficialmente em 1994, a questão do racismo e as suas consequências sócio-económicas têm estado no centro de polémicas na sociedade sul-africana.

Mesmo depois dos progressos registados após mais de duas décadas, persistem as desigualdades entre a maioria negra, que conta com 28% de taxa de desemprego, e a minoria branca, com 10% da população sem emprego.

A reacção de Vavi surge após a descoberta de restos mortais de uma espécie do género humano, a que os cientistas chamaram Homo Naledi.

Na origem da descoberta esteve o mediático paleontólogo Lee Berger, investigador norte-americano ligado à universidade sul-africana de Witwatersrand, em Joanesburgo, tem tentado pôr água na fervura em relação à polémica, defendendo que o Homem não descende do babuíno.

Segundo a equipa de investigadores envolvida, o corpo do Homo Naledi evoca o homem moderno, enquanto o respectivo crânio, do tamanho de uma laranja, se aproxima mais de um australopitecos, grupo pré-humano.

(dr) National Geographic

Eis o novo Homo naledi, um dos mais antigos ancestrais conhecidos do Homem

Cerca de 1.550 fósseis foram exumados da “Rising Star”, uma gruta próxima do local conhecido por “Berço da Humanidade”, cerca de 50 quilómetros a noroeste de Joanesburgo, que há décadas constitui uma mina para os paleontólogos.

As ossadas ainda não foram datadas, mas poderão, dizem os investigadores, permitir saber algo mais sobre a transição acontecida há cerca de dois milhões de anos entre o australopitecos primitivo e o primata do género “homo”, ancestral directo do Homem.

No centro da polémica, está em causa o facto de alguns estarem a pôr em causa a própria teoria da evolução, até hoje objecto de consenso científico.

Para Mathole Motshekga, deputado e antigo líder do grupo parlamentar do ANC, essa nova teoria sustenta a ideia de que os africanos têm origem em “sub-homens”, razão pela qual os habitantes do continente negro não são respeitados no mundo.

A descoberta do Homo Naledi parece calculada para dar razão aos defensores do apartheid, que afirmam que nós, negros africanos, descendemos do reino dos animais. Até nos negaram o estatuto de ser humano para justificar a escravatura, o colonialismo e a opressão”, sublinhou Motshekga a uma televisão local.

A polémica em torno da questão foi já alimentada até pelo próprio Conselho Nacional das Igrejas, organização historicamente implicada na luta contra o apartheid e que agrupa anglicanos e metodistas sul-africanos.

É um insulto dizer que descendemos de babuínos. Muitos ocidentais pensam que os negros são babuínos”, reagiu o bispo Ziphozihle Siwa, dirigente do Conselho.

/Lusa