“Portugal sabotou tudo” e “por medo de que eu saiba demasiado e de que partilhe estes dados”. É Rui Pinto, o hacker denunciante do Football Leaks e que é suspeito de ter divulgado emails do Benfica, quem o diz, realçando que “a máfia do futebol está em todo o lado”.

Na primeira entrevista que dá, depois de ter sido detido em Budapeste, na Hungria, no âmbito do processo que analisa a divulgação de emails confidenciais do Benfica, Rui Pinto acusa as autoridades portuguesas de estarem a boicotar as investigações que estão a ser realizadas em França e na Suíça, no âmbito do Football Leaks, e com as quais diz estar a colaborar.

“Não posso divulgar o que tenho no meu computador, mas uma coisa posso dizer: as autoridades europeias deviam vê-lo. Mas as autoridades portuguesas não, porque não querem investigar os crimes, apenas querem usar o material que encontrei contra mim”, diz Rui Pinto na entrevista conjunta à revista alemã Der Spiegel, ao canal de televisão alemão NDR e ao grupo francês Mediapart.

O jovem de 30 anos, que é apelidado de “hacker do Benfica”, recusa ser um pirata informático e assume-se como “John”, o “denunciante do Football Leaks”, lamentando que há “propaganda em Portugal” que está a tentar “denegrir” o seu nome e as denúncias que fez.

Rui Pinto lembra a fuga de informação de documentos da PLMJ, a “maior sociedade de advogados de Portugal” e diz que depois de a polícia acreditar que ele está por detrás disso, uma “simples ordem de investigação europeia tornou-se num mandado de detenção europeu” contra ele.

“Eu estava a colaborar com as autoridades francesas, a começar uma colaboração com as autoridades suíças e ia também, provavelmente, começar novas colaborações na Europa para investigações mais profundas, e de repente, Portugal sabotou tudo

“, lamenta. “Sabotou por medo de que eu saiba demasiado e de que partilhe estes dados, que eles acham que eu tenho, com jornalistas ou outros países”, diz ainda.

Portugal só me quer silenciar e silenciar o que está no meu portátil. Têm medo“, acusa também Rui Pinto que está certo de que não terá “um julgamento justo” no seu país natal.

“O sistema judicial português não é inteiramente independente, existem muitos interesses escondidos”, realça, apontando que “a máfia do futebol está em todo o lado“. “Querem passar a mensagem de que ninguém se deve meter com eles”, constata.

Rui Pinto assume-se fã de Cristiano Ronaldo, que é um dos visados nos documentos do Football Leaks, e adepto do FC Porto, clube que divulgou vários dos emails do Benfica, mas garante que não tem “qualquer agenda escondida” e que estes factos nunca o impediram de “partilhar informação relevante”.

E se reconhece que foi “ingénuo” e que fez “coisas estúpidas”, garante que nunca ganhou dinheiro com as informações que tem na sua posse, assegurando que “é mentira” que tenha havido “tentativas de extorsão”.

“O que me interessa, e o que interessa no Football Leaks, é que os documentos são verdadeiros”, salienta, notando que têm “o mesmo potencial dos Panama Papers“, o processo de investigação que envolve milhões de documentos confidenciais de uma sociedade de advogados do Panamá, com dados sobre milhares de empresas localizadas em paraísos fiscais.

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