Foi há precisamente meio século, a 25 de novembro de 1967, que as cheias, a pior catástrofe a seguir ao terramoto de 1755, deixaram um rasto de 700 mortos e 1100 desalojados. Sob o regime salazarista, esta tragédia nem o lápis azul da censura conseguiu esconder.

António de Oliveira Salazar, o homem que chefiava Portugal na altura, tentou esconder o rasto de destruição que 111 milímetros por mda água que caiu em cinco horas – entre as 19 horas e a meia-noite – tinha deixado, mas nem o lápis azul da censura podia apagar o cheiro que 700 cadáveres deixavam.

Os tempos eram de fome e pobreza e a maioria da população vivia em barracas de madeira em concelhos limítrofes da capital como Loures e Odivelas, a zona mais afetada. Muitos dos habitantes foram arrastados pelas águas e desapareceram.

A noite de 1967 representou 1/5 da precipitação daquele ano. E sabe-se agora, meio século depois, que o número de mortos se estabilizou perto do milhar (700), mas na altura, o Estado Novo parou de contar aos 426, como lembra o Observador. Juntam-se a estes números 20 mil casas destruídas.

Enquanto Portugal dormia, o nível da água do Tejo tinha subido quatro metros em cinco horas.

50 dias depois da tragédia, os corpos continuavam a aparecer: debaixo das ruas enlameadas ou dos edifícios destruídos pela força das correntes, mas nos jornais, já não havia notícias da catástrofe. Era uma tragédia enterrada.

Alice Vieira, na altura jornalista do Diário de Notícias, recorda, em entrevista ao Público, aqueles dias: Um dos funcionários do Estado Novo ligou a João Paulo Guerra, jornalista da Rádio Clube Português, e deu a ordem: “A partir desta hora, não morre mais ninguém“.

Depois daquele aviso, o Governo passou a mandar documentos para as redações na tentativa de suavizar as notícias sobre um desastre cuja dimensão estava perante o olhar de todos.

Um projeto de Francisco da Silva Costa, Miguel Cardina e António Batista Vieira, “As inundações de 1967 na região de Lisboa: Uma catástrofe com diferentes leituras“, revela alguns dos telegramas enviados às redações pelo Estado Novo: “Gravuras da tragédia: é conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos”.

Pouco mais tarde, seguiu-se outro aviso: “Os títulos não podem exceder a largura de meia página e vão à censura. Não falar no mau cheiro dos cadáveres. Atividades beneméritas de estudantes – cortar”.

Era uma tragédia à vista de todos e ainda assim enterrada.

E muitos acreditam que a grande causa desta ser a maior tragédia desde o terramoto que obrigou à reconstrução da capital não foi a chuva, mas sim a miséria

pela qual o país passava, sem forças para se levantar.

Foram postas a nu as condições sociais em que muitas pessoas viviam nesta cidade, mas também a inoperância do governo”: “O governo atrasou-se, paralisou, só conseguiu mandar para o terreno o Movimento Nacional Feminino, que só ia atrapalhar, e a GNR, que era uma polícia preparada para reprimir e não para salvar gente. Essa inoperância gerou uma enorme revolta na população”, explicou Danilo Matos, que integrou um dos movimentos estudantis da altura.

“Na realidade, a água foi muita. Foi sem sombra de dúvida a grande culpada da catástrofe, mas se as ‘casas’ (barracas) fossem verdadeiras casas teriam sido arrastadas pelas águas?”, questionaria a 10 de dezembro o Diário do Funchal, num trecho citado na análise de 2014, que conclui que o regime procurou enquadrar o que se passou na categoria de desastre natural, “vincando a inevitabilidade e a cadeia de solidariedade estabelecida”. Mas as estruturas oposicionistas colocaram a tónica nas condições sociais, “que fizeram com que as fortes chuvadas se transformassem num desastre humano”.

Marcelo não esquece

O Presidente da República era então um jovem de 18 anos, no segundo ano do curso de Direito. Com um grupo de estudantes ligado a movimentos católicos juvenis, arregaçou as mangas para ajudar, diz a TSF.

“Estivemos durante praticamente 24 horas permanentemente com equipas de socorro e de apoio, desorganizadas. Nós achamos que nos organizamos da melhor maneira, mas era o que era possível fazer no meio daquele caos”.

Tudo clandestino, porque não havia estruturas do regime” de Oliveira Salazar. O apoio do Estado só chegou vários dias da tragédia. Enquanto isso, apenas estudantes e bombeiros trabalharam para salvar vidas, resgatar os mortos e cuidar dos mais de mil desalojados.

Uma situação “insustentável” que representou para Marcelo Rebelo de Sousa “um choque pelo lado mais chocante, que é o lado social”.

Cinquenta anos depois garante: “Eu nunca mais esqueci isso na vida“.

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