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As câmaras municipais tiveram ao seu serviço cerca de 38 mil desempregados, colocados pelos Centros de Emprego, a trabalhar por uma bolsa mensal de pouco mais de 80 euros, ao longo de 2015. Autarquias assumem que são funcionários essenciais e os sindicatos falam em “escravatura dos tempos modernos”.

A situação foi denunciada pelo Bloco de Esquerda (BE) e é reportada pela TSF, que avança que, durante 2015, o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) colocou 38 mil pessoas a trabalhar nas autarquias através dos chamados Contratos Emprego-Inserção (CEI).

Destes, 18 mil terão sido colocados em Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e 12 mil na administração central, segundo dados da TSF.

Está em causa “mais de um terço dos 110 mil funcionários” que trabalham nas autarquias ao abrigo de contratos de trabalho tradicionais.

“Escravatura dos tempos modernos”

Estes desempregados deveriam ser colocados em funções “socialmente úteis”, mas na prática, “ocupam funções fundamentais (postos de trabalho permanentes) na função pública”, aponta a mesma Rádio.

O presidente da Associação Nacional de Municípios (ANMP), Manuel Machado, confirma na TSF que estas “e muitas mais” pessoas “são precisas nas autarquias” porque estas estão impossibilitadas de contratar mais funcionários.

Com “as autarquias inibidas de contratar pessoal”, mas a continuarem “a abrir novos serviços e equipamentos”, “a solução é recorrer aos CEI“, sustenta na mesma rádio o presidente da Câmara Municipal de Lamego, Francisco Lopes, assumindo que sem estes desempregados, o funcionamento das Câmaras sairia afectado.

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local (STAL), José Correia, é uma verdadeira “escravatura dos tempos modernos“, afirma à TSF, considerando que estes trabalhadores contratados via IEFP tapam “necessidades permanentes”, sem terem direito a quase nada.

Provedoria de Justiça já tinha criticado governo

O Provedor de Justiça confirma à TSF que “continua a receber queixas relativas aos CEI” e que está “a acompanhar o assunto”, revelando que foram abertos nove processos de queixa em 2015 e em 2016.

Já em 2014, a Provedoria fez uma exposição ao anterior governo, criticando a colocação de desempregados em serviços públicos a troco de uma mera bolsa mensal de 84 euros.

Quanto aos dados denunciados pelo BE relativos a 2015, nem o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, nem o IEFP confirmam.

Para pressionar o governo a tomar medidas neste âmbito, o BE entregou esta quinta-feira, 3 de Novembro, uma pergunta ao Parlamento onde questiona onde está o estudo previsto no Orçamento de Estado para este ano para apurar o número de trabalhadores precários do Estado, e que já devia ter sido concluído em Outubro.

ZAP