Miguel A. Lopes / Lusa

Marcelo Rebelo de Sousa sabia da demissão da ministra da Administração Interna e das medidas que estavam a ser preparadas antes do duro discurso em que pediu “humildade” e uma remodelação no Governo.

O duro discurso de Marcelo Rebelo de Sousa proferido na semana passada, desde Oliveira do Hospital, foi recebido com choque e surpresa no Governo, garante ao jornal Público uma fonte do Executivo.

Isto porque o Presidente da República terá sido previamente informado da saída da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e das medidas que viriam a ser anunciadas pelo Governo, nomeadamente depois do Conselho de Ministros Extraordinário do passado dia 21 de Outubro.

Estávamos à espera de um discurso duro, mas ficámos chocados. As coisas estavam combinadas com o Presidente da República, nomeadamente o momento da saída da ministra Constança Urbano de Sousa”, refere a fonte do Governo não identificada.

No seu discurso, Marcelo Rebelo de Sousa foi particularmente duro com o Governo, apelando à “humildade” do Executivo e exigindo um “novo ciclo”. Vincou mesmo que Bloco de Esquerda e PCP deveriam pronunciar-se no Parlamento sobre se mantinham, ou não, o apoio ao Governo socialista.

A demissão de Constança Urbano de Sousa foi anunciada na manhã seguinte e foi vista como uma cedência do Governo perante o “puxão de orelhas” de Marcelo.

“Chocado ficou o país”, avisa Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa já reagiu à notícia do Público, colocando em sentido o Governo. “Chocado ficou o país”, considera o Presidente da República em declarações divulgadas pelo Observador.

“Há duas maneiras de encarar a realidade: uma maneira é o diz que disse especulativo de saber quem ficou mais chocado, se foi ‘a’ com o discurso de ‘b’, ou se foi ‘b’ com o discurso de ‘a’. Depois há uma segunda maneira que é a de compreender que chocado ficou o país com a tragédia vivida

, com os milhares de pessoas atingidas. E país que esperou uma palavra dirigida às vítimas e que espera com urgência a reparação”, salientou Marcelo após um exercício militar na ilha Terceira, nos Açores.

MAI destaca Marcelo como “Jumento do Dia”

Entretanto, a atestar este alegado desconforto entre a Presidência e o Governo, a Renascença divulga que a página do site do Ministério da Administração Interna (MAI) destacou o artigo do blogue Jumento em que Marcelo é eleito o “Jumento do Dia”.

Em causa está a habitual revista de imprensa que é feita no site do MAI e que é acedida por polícias e outros organismos estatais, segundo a rádio. A partilha do artigo do Jumento foi feita dois dias depois do discurso de Marcelo. O autor deste blogue é desconhecido, mas a Renascença vinca que se suspeita que tenha ligações ao PS.

Na publicação, escreve-se que “Marcelo Rebelo de Sousa pode passear à vontade, desde que alguém leve o jipe com os processos para homologar, o que na maior parte dos casos não é mais do que assinar de cruz”.

E sobre o discurso, acrescenta-se que “Marcelo, manhoso como de costume, preferiu que a mensagem do primeiro-ministro frio e distante dos problemas prevalecesse sobre a verdade”.

Entretanto, o jornal do PS, o Acção Socialista, inclui, nesta quinta-feira, um artigo assinado por Simões Ilharco que considera que Marcelo “exorbitou claramente os seus poderes constitucionais” e que “ameaça a democracia”. O jornalista ainda acusa o Presidente de revelar “demagogia e populismo”.

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