Paulo Novais / EPA
O concelho de Vila de Rei está “farto de ver o Estado voltar a falhar às populações” na hora dos incêndios. É o vice-presidente da autarquia quem o diz numa altura em que o fogo está de volta à região centro, repetindo-se os erros de 2017.
O país não aprendeu quase nada com os trágicos incêndios de 2017, desabafam ao Expresso alguns bombeiros que trabalham no terreno a apagar as chamas nos fogos entre Vila de Rei e Mação, em Castelo Branco.
“Pouco foi aprendido dos incêndios de 2017”, lamenta ao semanário o presidente da Federação dos Bombeiros de Castelo Branco, José Neves, considerando que “há muito combate mas falta prevenção”.
“Continuar a evacuar aldeias mostra que não aprendemos a proteger estes aglomerados populacionais”, diz ainda o comandante, frisando que o fogo se encaminha para uma área que já ardeu em 2017 e onde existe ainda “muito material lenhoso que não foi retirado” depois dos grandes incêndios de há dois anos.
O vice-presidente da Câmara de Vila de Rei, Paulo César, junta-se às críticas e lamenta que o concelho “está farto” de “sucessivos incêndios com origem criminosa” e de “ver o Estado voltar a falhar às populações“.
Encontrados artefactos para “potenciar prejuízos”
Há suspeita de mão criminosa nos incêndios. Os comentários acerca de eventuais causas criminosas são uma constante entre os moradores. O facto de terem surgido vários fogos quase em simultâneo e a poucos quilómetros uns dos outros cria ainda mais desconfianças.
A Polícia Judiciária está a investigar os artefactos incendiários que foram encontrados em várias zonas do concelho de Vila de Rei. Não são artefactos explosivos — o que significa que foram ali colocados para iniciar um fogo. Vários elementos da Diretoria do Centro da PJ estão no local dos incêndios a realizar diligências.
Uma fonte da PJ revela à Rádio Renascença que os alegados incendiários tiveram um “conhecimento e preocupação significativa”, designadamente quanto aos pontos de colocação dos artefactos e ao momento escolhido, “cerca das 14:40 horas”, de forma “a potenciar prejuízos patrimoniais e até pessoais“.
Chamas dominadas, mas temem-se “reacendimentos graves”
Pedro Nunes, comandante do Agrupamento Distrital do Centro Norte da Proteção Civil, fez esta manhã o ponto da situação a partir da Sertã. O “incêndio está estabilizado”, os meios foram redistribuídos e “90% do incêndio está dominado”.
Ainda assim, os restantes 10% estão a arder e a “carecer de muita atenção”. “[O fogo] tem um perímetro ativo de 10%, com chama. Foi feito um esforço durante a noite por parte de todos os efetivos no teatro de operações. Todo o efetivo está concentrado”.
Não há alterações ao dispositivo de combate aos incêndios, diz ainda Pedro Nunes, sublinhando que os meios aéreos vão-se manter. “Temos capacidade de resposta, quer terrestre, quer aérea, porque todo o foco está nesta operação, não há outros focos de incêndios”, disse, lembrando que nos anos anteriores havia múltiplos cenários de incêndio, sendo que todas as atenções estão concentradas no mesmo teatro de operações.
Cada frente tem um posto de comando de operação – um em Mação, outro em Vila de Rei -, explica, referindo que não há registo de pessoas desalojadas e de habitações ardidas. Questionado sobre quais são as povoações que estão na linha do fogo, no caso de tudo correr mal, Pedro Nunes identificou as povoações de Mação e Proença a Nova.
O comandante Pedro Nunes diz ainda que os meios aéreos estão disponíveis para trabalhar mas a falta de visibilidade não o permite. “A camada limite da atmosfera está muito baixa, o que faz com que o fumo não permita que as aeronaves trabalhem”, disse, sublinhando que o problema deve ser resolvido na próxima meia hora, altura em que as condições atmosféricas, que são idênticas às de uma situação de nevoeiro, deverão melhorar. Há quatro pelotões de rescaldo das Forças Armadas a caminho, diz ainda.
“Vamos ter um dia muito difícil pela frente”, resumiu Pedro Nunes, dizendo que o ponto-chave estará na parte da tarde. Para já, a ordem é “fechar grande parte do perímetro com máquinas de arrasto”. “Ao fazermos isso diminuímos a probabilidade de reativações”, diz. O comandante adianta que há dez feridos e que foram assistidas 21 pessoas pelo INEM.
O comandante Pedro Nunes afirma que “os meios terrestres são suficientes”, o problema não está nos meios mas sim nas condições do território para as máquinas de arrasto fazerem o seu trabalho. “Não é uma questão de meios, é uma questão de conseguirmos trabalhar o território, e já sabemos que as máquinas andam a uma velocidade pequena, e a componente de combustíveis também não facilita”.
“É um trabalho moroso, temos de ir devagar e temos de olhar para aquilo que temos, perceber onde estão as dificuldades. As grandes portas estão no flanco esquerdo, porque o problema está no vento de leste, é ai que está a ser concentrado o trabalho”, acrescenta.
No momento, o incêndio está a ser combatido por mais de mil operacionais apoiados por 322 viaturas.
Em declarações à Rádio Observador, o presidente da câmara de Vila de Rei, Ricardo Aires, afirmou que a maior preocupação neste momento é o calor intenso que se espera no dia de hoje, que pode vir acompanhado de vento. “Esperemos que não haja reacendimentos graves devido ao calor e ao vento, e esperemos que os meios não se desmobilizem”, disse.
Não querendo “especular” sobre o número de casas afetadas, o autarca disse que “são algumas, não muitas, umas três ou quatro”, sublinhando que não tem ainda na sua posse o levantamento preciso.
Por precaução, algumas pessoas mais idosas passaram a última noite no lar de apoio, mas “isso não quer dizer que as suas casas tenham sido destruídas”.
Quanto à área ardida no concelho, Ricardo Aires também não quis “especular”, remetendo mais informações para o final de uma reunião que vai ter na câmara ainda esta manhã.
Alguns concelhos dos distritos de Castelo Branco e Santarém, afetados por incêndios desde o fim de semana, apresentam esta segunda-feira um risco máximo de incêndio, temperaturas máximas a rondar os 39 e 40 graus e baixa humidade, segundo o IPMA.
Em declarações à agência Lusa a meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Madalena Rodrigues, adiantou que o dia de hoje vai ser marcado por tempo quente, baixa humidade e vento moderado, situação que não é “favorável ao combate aos fogos”.
“Para as regiões afetadas pelos incêndios que pertencem ao distrito de Castelo Branco estão previstos 39 graus e baixa humidade que pode atingir os 15% durante a tarde. Para amanhã já se prevê uma pequena descida da temperatura máxima e uma ligeira recuperação da humidade relativa nas regiões do interior norte e cento”, explicou.
Entre os quase 40 concelhos esta segunda-feira em risco máximo de incêndio estão os concelhos de Vila de Rei e Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, e Mação e Sardoal, em Santarém. Há também vários concelhos dos 18 distritos de Portugal continental em risco muito elevado e elevado de incêndio.
Vários incêndios deflagraram no distrito de Castelo Branco ao início da tarde de sábado. Dois com origem na Sertã e um em Vila de Rei assumiram maiores dimensões, tendo este último alastrado, ainda no sábado, ao concelho de Mação, distrito de Santarém. O incêndio de Vila de Rei e Mação é o único que continua por controlar e tem mobilizado várias centenas de operacionais e de meios de combate.
Um civil ficou ferido com gravidade neste incêndio e está internado no hospital de São José, em Lisboa. Há ainda nove feridos ligeiros e mais de duas dezenas de pessoas foram assistidas no terreno pelas equipas do INEM.
As chamas também já atingiram habitações, num número ainda não quantificado pelas autoridades, depois de durante a tarde de domingo as chamas terem ameaçado dezenas de aldeias, segundo autarcas.
[sc name=”assina” by=”ZAP” source=”Lusa” ]
O estado somos todos…
Não conheço a realidade destes incêndios mas apesar da alteração da lei continua a ver-se muita coisa mal. onde está a limpeza? o corte de arvores a 50 metros das aldeias, etc...
O estado é culpado por não legislar devidamente depois vem as demais entidades e os proprietários dos terrenos por não cumprirem com a lei.
é obvio que muitos não tem culpa até porque não podem limpar o que é dos "outros"...
Quanto ao Vice presidente que falou se calhar devia era estar calado pois com as recentes alterações uma das entidades que mais responsabilidades assumiu foram os municípios.
A titulo de exemplo compete aos municípios ter um Plano Municipal de Emergência que contemple entre outros aspetos incêndios, compete aos municípios ter um PDM atualizado que designe a utilização a dar aos solos e acima de tudo compete ao município fazer cumprir as leis relacionadas com o ordenamento do território.
Se os munícipes não cumprem compete ao município atuar em conformidade... e não depois da catástrofe chutar as responsabilidades para o lado...