Hugo Delgado / Lusa
A derrota do PSD, com uma desvantagem de mais de 10 pontos percentuais sobre o PS que foi o vencedor da noite eleitoral, o reforço do Bloco de Esquerda como a terceira força política e a eleição de um eurodeputado do PAN marcam as europeias que se realizaram neste domingo em Portugal.
O PS foi o grande vencedor da noite eleitoral, como já indicavam as sondagens, somando 33,39% dos votos, com uma vantagem de mais cerca de 10 pontos em relação ao PSD que somou 21,94%. Trata-se, percentualmente, do pior resultado de sempre dos sociais-democratas, ficando abaixo dos 24,3% obtidos nas legislativas de 1976.
O PS conseguiu eleger 9 eurodeputados, mais um do que nas eleições passadas, enquanto o PSD mantém os seis lugares no PE.
Em europeias, o pior resultado do PSD tinha sido há 5 anos quando, em coligação com o CDS-PP, conseguiu 27,7% dos votos. A concorrer sozinho, o pior resultado do partido foi em 1999, com 31,1% dos votos, com Pacheco Pereira como número um.
Há 5 anos, a diferença entre o PS – que então venceu também as eleições – e a coligação PSD/CDS-PP foi inferior a 4 pontos percentuais.
O CDS-PP alcançou também o seu pior resultado de sempre em europeias, com 6,19% dos votos, mas manteve Nuno Melo no Parlamento Europeu (PE).
A CDU foi outra das forças derrotadas da noite, ficando em quarto lugar na votação com 6,88%, abaixo dos 6,9% conseguidos nas legislativas de 1999 e dos 9,09% das europeias de 2004.
O Bloco de Esquerda (BE) e o PAN foram os outros dois vencedores da eleição, com os bloquistas a conseguirem eleger um segundo eurodeputado e a duplicar a votação de 2014, com cerca de 320 mil votos e 9,82%, consolidando-se como a terceira força mais votada nas europeias.
Já o PAN, o partido Pessoas-Animais-Natureza, surpreendeu ao conseguir eleger pela primeira vez um eurodeputado, com cerca de 5,08% e 165 mil votos.
Outro dos perdedores da noite foi António Marinho e Pinto que nas europeias de 2014 conseguiu eleger 2 eurodeputados para o seu partido de então, o MPT (Movimento Partido da Terra), mas que agora fica fora do PE.
O Aliança, do ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, falhou a eleição de Paulo Sande, somando 1,86% dos votos, e a coligação Basta, do ex-social-democrata André Ventura, ficou em nono lugar na votação com 1,49%, atrás do Livre de Rui Tavares (1,83%).
Portugal elege 21 dos 751 eurodeputados ao PE.
Rio chuta para a frente e fala em ganhar as legislativas
Perante os resultados negativos, Rui Rio, presidente do PSD, admite “sem floreados” a derrota, mas considera que tem “condições” para levar o partido a “um bom resultado” nas legislativas de Outubro, recusando abandonar o barco.
“Estamos a falar de alguém que anda há 61 anos na vida pública. Eu não abandono, eu assumo as minhas responsabilidades“, atira Rio em declarações aos jornalistas, frisando que a meta é agora “ganhar as eleições” legislativas. Um objectivo que Rio acredita ser possível porque são “eleições completamente diferentes”.
O presidente do PSD não deixa de enviar farpas aos opositores dentro do PSD, frisando que foi “difícil andar um ano com turbulência interna“. Talvez por isso Rio aponte como o grande culpado pelo resultado o “PSD como um todo”. “O Dr. Paulo Rangel, como cabeça de lista, teve um pouco mais e eu também porque sou líder do partido”, acrescenta ainda.
Rio frisa também que é preciso “aprender” com os erros desta campanha e que nas legislativas, é necessário “fazer uma campanha diferente dos moldes tradicionais”.
Costa mantém fé na geringonça
Analisando os resultados da noite eleitoral, António Costa considera que a vitória do PS é “expressiva, clara e inequívoca” e que constitui um “voto de confiança” dos portugueses no seu Governo.
“Nestas eleições, é evidente a derrota muito clara que o PSD e o CDS-PP sofreram”, aponta ainda o primeiro-ministro, notando que os parceiros de esquerda que suportam a actual solução governativa também alcançaram um bom resultado. É primeiro-ministro a manter a fé na geringonça que pode vir a ser necessária ao PS nas legislativas.
O mau resultado do PCP, na coligação CDU com Os Verdes, pode vir a ser um problema para o PS nas eleições de Outubro. Mas Costa finta essa pergunta. Há quem defenda que os comunistas estão a pagar agora o apoio que têm dado ao PS no Governo. A manter-se a actual tendência de votos, os socialistas ficarão longe da maioria absoluta em Outubro, pelo que poderão depender de uma nova “geringonça” para governar. Falta saber se o PCP estará disposto a firmar uma nova aliança com o PS.
Bloco afirma-se como terceira força política
A coordenadora do BE, Catarina Martins, qualifica de “extraordinário” o resultado do partido, considerando que estas eleições “reconfiguram o mapa político”. “A disputa política está nos projectos que a esquerda tenha capacidade para apresentar”, aponta ainda a líder bloquista num alerta a Costa de que precisará de contar com o seu partido para o que há-de vir.
“O BE cresceu em percentagem, cresceu em votos e cresceu em todo o território, de norte a sul do país”, salienta Catarina Martins, realçando que o partido “é hoje a terceira força política do país”. “Com mais força, mais capacidade e por isso mesmo com mais responsabilidade”, acrescenta.
O BE elege dois eurodeputados, Marisa Matias e José Gusmão, e assegura importância eleitoral mais do que suficiente para que Costa não se esqueça disso com as legislativas no horizonte.
“Noite histórica” para o PAN
O porta-voz do PAN, André Silva, congratula-se com a eleição de um eurodeputado para o PE, realçando a “noite histórica” do partido que já “não é uma moda” e que “ganhará cada vez mais voz”. “Há cada vez mais pessoas a pensar como nós”, considera o dirigente, frisando que o PAN tem “dado respostas, ao contrário dos partidos tradicionais”.
“A religião do PIB [Produto Interno Bruto] não pode estar no centro da discussão”, aponta também André Silva, reforçando a importância de questões como a “crise climática”.
Cristas culpa abstenção pelo mau resultado
“Ficámos aquém dos objectivos traçados”, afirma Assunção Cristas sobre a noite eleitoral negativa do CDS-PP, lembrando que o partido que lidera não conseguiu atingir a meta de eleger o seu segundo eurodeputado.
Ao lado de Nuno Melo, a líder dos populares considera que a abstenção, em redor dos 70%, foi “o maior obstáculo” do partido, e garante que compreendeu “bem o sinal que os eleitores quiseram dar”.
Falando para o interior do partido e apontando às legislativas, Assunção Cristas destaca que o CDS é um partido “forte, unido, dinâmico, entusiasmado”.
“Um sinal de alerta” para os comunistas
O secretário-geral do PCP assume que o resultado eleitoral da CDU foi “particularmente negativo” para os interesses dos trabalhadores, do povo e do país, reconhecendo a quebra face aos 3 eurodeputados eleitos em 2014. A CDU tinha obtido há 5 anos o seu segundo melhor resultado de sempre em sufrágios europeus, sendo a terceira força política mais votada, com 12,7%, e 3 mandatos conquistados. Desta vez, elegeu apenas dois eurodeputados.
O resultado deste domingo “deve constituir um sinal de alerta“, constata Jerónimo de Sousa, salientando que “as eleições legislativas de Outubro próximo serão um momento decisivo”. Até porque pode estar em causa a sua liderança no PCP, perante um novo mau resultado.
[sc name=”assina” by=”SV, ZAP” source=”Lusa”]
Será que Cristas compreendeu mesmo bem o sinal” dos eleitores?É que o sinal quer dizer que há muito que ninguém a suporta, existe um limite para a incompetência e estupidez e a cristas ultrapassou esse limite de uma forma impressionante!