António Oliveira Salazar

A Câmara Municipal de Santa Comba Dão não tem quaisquer planos para exibir uma estátua e um busto de Salazar que lhe foram cedidos pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC). A garantia é dada pelo autarca Leonel Gouveia que, contudo, lamenta que “o passado não pode ser escondido” e que “vivemos com muitos fantasmas”.

As declarações do autarca de Santa Comba Dão surgem depois de o Bloco de Esquerda (BE) ter manifestado a preocupação com a eventual exposição de uma das estátuas. Para apurar dessa possibilidade, chegou a solicitar à Câmara o acesso ao protocolo da cedência assinado com a DGPC.

“Existem duas estátuas com a figura de Salazar guardadas pela Câmara de Santa Comba Dão. Uma delas poderá ser exibida na cidade em local ainda a definir. A Comissão Coordenadora Distrital de Viseu do Bloco de Esquerda assume-se manifestamente contra essa possibilidade, que considera uma ofensa e um ultraje aos valores da democracia e da liberdade”, apontou o Bloco.

Mas o autarca do PS nega aquela hipótese, sustentando que as duas estátuas “estão devidamente acondicionadas em edifício da Câmara Municipal” e que “nunca foi pensada a sua localização e a sua instalação, se é que alguma vez ela venha a acontecer”, conforme declarações divulgadas pela Rádio Renascença. “Não é verdade que alguma vez tivesse tido alguma localização, nem nunca esteve este assunto em cima da mesa”, garante ainda.

Leonel Gouveia conta à Renascença que a DGPC contactou a autarquia porque “tinha duas estátuas no Mercado Abastecedor de Lisboa, que tinham sido retiradas há alguns anos do Palácio Foz, e agora precisavam de libertar o espaço e [perguntava] se a autarquia as queria receber a título de cedência, não doação”.

As duas estátuas permanecem, assim, armazenadas e não vão ser incluídas no Centro Interpretativo do Estado Novo (CIEN) que a autarquia pretende abrir no local da Escola Cantina Salazar. Leonel Gouveia frisa que “o centro interpretativo do Estado Novo não terá nenhum objecto pessoal, nem nenhum busto” de Salazar.

Mas o autarca lamenta que “infelizmente, vivemos com muitos fantasmas do passado e devíamos-nos preocupar com o futuro”. “Estas abordagens fundamentalistas até fazem crer que Santa Comba Dão é uma terra de fascistas e que fique claro que estamos a trabalhar do ponto de vista científico, do ponto de vista daquilo que foi o século XX português e, em particular, o Estado Novo”, diz.

O passado não pode ser escondido, pelo contrário, tem de ser bem recordado para não voltar acontecer”, acrescenta.

O CIEN pretende ser um “espaço de celebração da democracia”, dando a conhecer “de forma isenta” uma parte da História de Portugal. “É nosso objectivo que o CIEN seja um equipamento obrigatório para a visita de escolas, que sirva de local de estudo para estudantes universitários, que receba investigadores e historiadores, que seja um espaço de celebração da democracia”, aponta o autarca.

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