O Governo espanhol procedeu a um transvase de água do Tejo, para regar os campos do sul do país, numa medida que foi posta em prática na calada da noite e de forma “ilegal”, segundo acusam associações ambientalistas. Há quem fale num verdadeiro “roubo de água”.

Os jornais Sol e Correio da Manhã avançam que este transvase da Cabeceira do Tejo para o rio Segura, no Levante espanhol, começou às 20h00 de 29 de Setembro passado e só terminou na madrugada do dia seguinte.

O transvase teve como objectivo levar água até aos campos do sul do país, nas regiões de Múrcia e Almeria, consideradas a “horta da Europa”, fruto das grandes produções agrícolas que têm sido usadas como “bandeira” do Governo espanhol para ilustrar as boas políticas económicas do país.

Este transvase Tejo-Segura foi “ilegal”, denunciou um elemento da Plataforma em Defesa dos Rios Tejo e Alberche, Miguel Ángel Sánchez. É que desde Maio de 2017 que não são permitidas transferências de águas entre os dois rios porque o nível de água das barragens está bastante abaixo dos mínimos estabelecidos.

Para contornar a situação, o que o Governo espanhol fez “foi disfarçá-lo, chamando-lhe cessão de direitos”, aponta ao jornal i o presidente da Associação de Municípios Ribeirinhos, Francisco Pérez Torrecilla, que representa 22 localidades nas margens do Tejo.

O transvase, autorizado pela Confederação Hidrográfica do Tejo (CHT), que gere o rio em Espanha, terá mesmo causado a demissão do ex-presidente da estrutura, Miguel Antolín, que “se terá recusado a dar ordem para accionar a transferência”, realça o Sol.

O seu sucessor no cargo, Juan Carlos de Cea, que acabou por autorizar o transvase, assegura a este semanário que a lei está a ser cumprida escrupulosamente.

“Portugal deveria denunciar Espanha de forma dura”

Este foco no “discurso legalista” é a estratégia recorrente do Governo espanhol, aponta ao Sol o elemento da Greenpeace Espanha Julio Barea. No caso do transvase Tejo-Segura, “está neste momento blindado por diferentes leis reais e decretos” de modo a que seja “intocável”, considera.

Já em declarações ao i, Barea destaca a “irracionalidade com que se está a gerir a política hídrica espanhola” e aponta que Espanha é “o país com mais denúncias em matéria ambiental da União Europeia”, nomeadamente quanto à questão das águas.

Barea vai mais longe e diz que “Portugal deveria denunciar Espanha de forma dura” perante os parceiros da União Europeia.

Num comunicado da Associação de Municípios Ribeirinhos, citado pelo site ElPeriodicoDeLaEnergia, fala-se declaradamente de “um roubo de água”, lamentando-se que o transvase Tejo-Segura “encarece a energia eléctrica para todos os espanhóis”.

“Estamos a subvencionar o benefício de uns poucos com o dinheiro de todos os espanhóis que, agora, vemos como a luz sobe cada vez mais e mais acrescenta à seca, quando os nossos reservatórios estão preparados para suportar até cinco anos com escassez de chuvas”, queixa-se a Associação de municípios das margens do Tejo.

Enquanto isso, e com os níveis de água a atingirem mínimos históricos, a política de transvases é vista como a única solução em várias zonas de Espanha, nomeadamente na Galiza.

Os rios galegos carregam 80% menos de água do que o habitual, nesta época do ano, refere o El País, frisando que na zona de Ourense, o caudal arrasta “34 metros cúbicos de água por segundo” quando o normal seriam 220 metros cúbicos.

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