Já não há espaço para as toneladas de roupa que chegaram a Pedrógão Grande, no âmbito da onda de solidariedade para com as vítimas do grande incêndio que matou 64 pessoas. E entre um vestido de noiva, um traje de carnaval e roupa estragada, muito do vestuário deverá ir para reciclagem ou para os PALOP.

O Jornal de Notícias apurou que o excesso de solidariedade, nomeadamente no capítulo da roupa oferecida para as vítimas do incêndio em Pedrógão Grande, está a transformar-se numa “dor de cabeça logística para as entidades envolvidas na recolha, tratamento e distribuição dos bens”.

Ao concelho chegaram toneladas de roupa, incluindo “um traje de Carnaval, um vestido de noiva, milhares de peças de roupa de criança, peluches, vestuário estragado“, escreve o JN, lembrando que Pedrógão Grande tem “quatro mil habitantes”, maioritariamente com “mais de 60 anos”.

Assim, muita desta roupa doada deverá ser enviada para os PALOP ou para a reciclagem.

Reconstrução das casas vai avançar “em força”

O presidente da Câmara de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, já apelou aos portugueses para não doarem mais vestuário, que já “chega para as necessidades”, pedindo antes a oferta de medicamentos, de alimentos não perecíveis e de materiais de construção.

O autarca assegura também que “não está a faltar nada” às populações afectadas pelo incêndio de 17 de Junho, que provocou 64 mortos e cerca de 250 feridos.

A Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande e os Bombeiros Voluntários estão a colaborar com a autarquia no apoio, nomeadamente, em termos de distribuição de alimentação.

Entretanto, a reconstrução das primeiras casas vai avançar e “em força”, promete Valdemar Alves.

“Vamos começar pelos telhados das casas, que não necessitam de projecto aprovado, porque as pessoas não querem sair das suas habitações”, sublinha o autarca que considera “estúpidas” as burocracias de, nesta situação, “cada uma ter um projecto para a Câmara aprovar”.

Passos quer avançar com indemnizações rápidas

Também contra a burocracia se manifesta Pedro Passos Coelho, anunciando que o PSD vai procurar apoios no Parlamento para avançar com uma iniciativa que permita criar um fundo de indemnizações rápidas para as vítimas do incêndio.

Na apresentação do candidato PSD/CDS-PP/PPM à Câmara Municipal de Oeiras, Passos Coelho reiterou que “não há nenhuma razão para que o Estado fique à espera de averiguar seja o que for” para criar este fundo, acusando o Governo de não fazer “nada”.

Passos Coelho tinha feito este desafio ao primeiro-ministro no último debate quinzenal, com António Costa a responder que esse mecanismo rápido de indemnização seria criado se se provasse que existiu responsabilidade objectiva do Estado

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“Não há nenhuma razão para as pessoas ficarem à espera das conclusões dos relatórios e saber se o Estado tem ou não a ver com a concessionária que gere aquelas estradas, não temos de obrigar as pessoas e as famílias a passar por esse calvário”, defendeu.

Cenário ainda é de grande devastação

Em Carvalheira Pequena, no concelho de Pedrógão Grande, os efeitos devastadores do incêndio ainda saltam à vista de quem atravessa a aldeia – casas, viaturas e olivais destruídos pelo fogo.

Não houve mortes nesta aldeia, ao contrário do que aconteceu nas localidades vizinhas de Nodeirinho e Pobrais, mas o cenário ainda arrepia o visitante, com o negro da terra queimada e o amarelo das folhas das árvores por todo o lado.

Manuel Rodrigues e Odina Godinho, de 82 e 76 anos, respectivamente, perderam a casa de habitação em que residiam. Restou-lhes uma antiga habitação familiar, onde vivem actualmente.

“Tem havido muita colaboração e promessas de ajuda, mas enquanto não vier o apoio, não acredito“, diz o octogenário, que, contudo, mostra-se esperançado em receber alguma ajuda para recuperar a casa.

Na parte cimeira da aldeia, uma antiga fábrica de blocos ficou totalmente destruída, juntamente com várias viaturas do proprietário que é madeireiro e que ficou sem um camião semi-reboque, dois veículos pesados, uma máquina retro-escavadora e um automóvel.

Sem memória de um fogo daquela dimensão, Manuel José David, de 88 anos, sogro do empresário, salienta que os prejuízos ultrapassam os 300 mil euros.

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