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É conhecido como o Dr. House português, numa referência à série televisiva norte-americana, pela forma como faz diagnósticos certeiros. E Vítor Brotas que trabalha no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, admite que é “um médico fora da caixa”, até nas críticas que faz ao sistema.
Não usa telemóvel, não tem “vagar” para fazer medicina privada e não sabe quanto ganha – “a minha mulher é que sabe de dinheiro”. As palavras são do médico Vítor Brotas, o Dr. House português como é conhecido, numa entrevista ao Diário de Notícias (DN).
“Pagam aos médicos mais do que merecem porque o médico não está focado no seu ponto de aplicação, que é algo para o qual está capacitado e outro cidadão não consegue fazer”, considera, frisando que “os médicos, os enfermeiros, não têm a possibilidade de desempenhar as tarefas que deviam”.
“Trabalho médico não é escrever no computador, telefonar, fazer requisições, ver se o exame foi marcado, ver não sei o quê, e isso é 90 % da actividade de um médico”, lamenta Vítor Brotas. “Temos um serviço de saúde mau porque 90% do que os médicos e enfermeiros fazem não são actos médicos, são fantochadas, registozinhos, relatoriozinhos, passar atestados”, diz ainda.
“É por isso que digo que não mereço o que ganho, só mereço o que ganho se o meu ponto de aplicação for o adequado, quando isso for possível, o Serviço Nacional de Saúde melhora logo”, conclui.
“Os médicos estão a ser desviados por um excesso de actos administrativos; a ser desfocados do assunto”, diz, realçando que o assunto dos médicos é “a relação humana, ajudar o doente a resolver um bem; que é o seu bem-estar”.
“É o computador que não funciona, as listas disto e daquilo para contabilizar não sei o quê. É facílimo para um gestor pôr toda a gente a trabalhar para ele, mas desfoca-nos do assunto” que é “diagnosticar e dar atenção aos pormenores“, acrescenta.
Palavras “fora da caixa” de um médico que não gosta do “endeusamento” proporcionado pela comparação com o “Dr. House” da série televisiva, mas que se revê na personagem “no acto médico” e também na forma como é “duro com os alunos” que acompanha.
Nessa relação com os futuros médicos do país que lhe passam pelas mãos no Hospital dos Capuchos, Vítor Brotas destaca que gosta de “chocar os miúdos, por exemplo, usar uma navalha para apontar no ecrã ou nas radiografias”.
“Fui buscar um alicate, cortei as unhas do velhote e meti-as num saquinho”
A sua missão é “transmitir aos alunos” “um conhecimento não livresco”, para que “usem o tempo em aspectos fundamentais e, na medicina, é a relação humana”, diz.
Neste sentido, conta na entrevista ao DN como cortou as unhas a um idoso que estava internado no Hospital dos Capuchos com “umas unhas dos pés muito grandes, encarquilhadas (onicomicose)”. Uma lição para um aluno americano perceber a humanidade que deve imperar na actuação dos médicos.
“Fui buscar um alicate, um corta-unhas maior, uma lima, cortei as unhas do velhote como deve ser e meti-as num saquinho de plástico. Expliquei-lhe que um médico vê, repara e olha, é responsável pelo que vê. Vi as unhas e podia dizer: “Não sou um podologista”, um enfermeiro dizia a mesma coisa; um director de serviço dizia: “Estou numa cadeira de ouro, não me compete.” Um médico não pode estar distraído permanentemente com tantos pormenores que não têm que ver com a sua formação, mas se não estiver atento está lixado”, constata Vítor Brotas.
A colocação das unhas no saco foi “para as mostrar aos colegas, para os picar, chatear”, admite. “Passámos a visita durante a manhã, toda a gente viu as unhas e não as cortaram. Ou podem nem ter visto, mas temos de ver tudo, é nos pormenores que está a diferença”, conclui.
Vítor Brotas define-se como “um médico de medicina interna, com um grande gosto” no que faz e que cultiva “a disponibilidade, ter tempo”. “Entrei nesta sexta-feira às 08.00 e saio no domingo às 08.00”, diz à jornalista do DN, justificando assim o facto de não ter tempo para exercer medicina privada.
A trabalhar no Hospital dos Capuchos há 34 anos, Vítor Brotas elogia o “espírito incrível” deste espaço – é “velhinho, todo podre, mas é um bom hospital”, aponta.
Considerado um “ás no diagnóstico”, o médico admite que além da morte, um dos seus maiores medos é o de errar nos diagnósticos. “Um gajo tem um medo do caraças, medo de se enganar, de não corresponder”, sustenta. “É um medo do carago, mas não se pode vir para medicina com medo”, conclui.
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Os formados de agora não são diferentes dos de outrora, o mal é que estão a ser mandados por os não formados.