António José / Lusa

O presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande, Valdemar Alves

Centenas de donativos enviados pelos portugueses paras as vítimas do incêndio de Pedrogão Grande, que deflagrou a 17 de junho de 2017 fazendo 66 mortos e mais de 200 feridos, estão “escondidos” em armazéns da autarquia, revela uma reportagem da TVI esta quinta-feira transmitida. 

Segundo relata a TVI, em causa estão centenas de frigoríficos, máquinas de lavar, micro-ondas, mobílias inteiras e até colchões, alguns destes objetos estão ainda embalados com os plásticos de origem e não chegaram nunca às vítimas.

A emissora afirma “que muitos desses donativos estão a ser desviados para amigos e familiares dos autarcas“, dando conta que o Ministério Público está a analisar o caso.

“Eles é que movimentam isto, é que fazem o que querem. Isto é tudo deles. É o quero, posso e mando”, afirma Manuel Antunes, antigo funcionário da autarquia na peça.

Fernanda Alves, uma das vítimas atingidas pelo incêndio, confirma que entre os donativos “havia circo-ondas, frigoríficos, montes de coisas”. “Gostava de lhe fazer uma pergunta: para onde é que foram essas coisas?”, indaga.

Ao que a emissora apurou, os donativos em causa estão guardados em dois armazéns da autarquia, que se encontram “vedados” e “permanentemente trancados“, sendo estes espaços apenas acedidos por funcionários da Câmara de Pedrógão Grande.

“Pavilhões cheios. Tanta coisa que veio. Não era preciso ir lá dentro. Via-se que estavam cheios de coisas pelas janelas. Não sei para onde é que isso [os donativos] foi”, confirmou Mário Alves, vítima do incêndio, em declarações à TVI.

A investigação, que é apresentada pelo jornalista André Carvalho Ramos, foi até ao local onde os donativos estão armazenados, captando imagens que mostram vários objetos empilhados e ainda embalados. As mesmas imagens mostram que as janelas de um dos armazéns foram tapadas com tijolos. A porta das traseiras do espaço, que é o único acesso ao interior, foi também bloqueada com uma retro-escavadora da autarquia.

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De acordo com a reportagem, familiares de autarcas da Câmara de Pedrógão receberam alguns dos donativos, situação que é confirmada pelo antigo funcionário da autarquia que alega ter visto três funcionário camarários a carregar alguns destes objetos.

“Estavam a carregar um estrado de uma cama, umas mesa de cabeceira (…) os funcionários da câmara [estavam] num carro particular para levar para a casa de um funcionário (…) eram três pessoas que estavam lá que foram descarregar na freguesia de Via Facaia, na localidade dos Campelos”, afirma.

Manuel Antunes nota que esta é a freguesia onde vive a vice-presidente da Câmara, adiantando ainda que “quem carregou o material” foi o seu irmão.

Confrontada sobre se favoreceu o seu irmão, a vice-presidente da autarquia, Margarida Guedes, nada respondeu. Também o seu irmão recusou falar com a TVI.

Quanto aos donativos “escondidos”, a vice-presidente começou por dizer que a câmara “não tem qualquer eletrodoméstico”, remetendo depois declarações adicionais para  presidente da câmara, Valdemar Alves. “Isso é com o senhor presidente“, rematou.

Em igual sentido, também Valdemar Alves se remeteu ao silêncio quando confrontado pelo jornalista, que também o questionou sobre o facto de ser o seu filho, Telmo Alves, o responsável pela gestão dos donativos.

De acordo com a TVI, a Câmara de Pedrógão Grande está a ser investigada pelo Ministério Público num processo que analisa o que foi doado e a quem foram entregues os donativos.

O incêndio que deflagrou em 17 de junho de 2017, em Escalos Fundeiros, concelho de Pedrógão Grande, e que alastrou depois a concelhos vizinhos, provocou 66 mortos e 253 feridos, sete deles com gravidade, tendo destruído cerca de 500 casas, 261 das quais eram habitações permanentes, e 50 empresas.

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