Paulo Novais / Lusa

A peregrinação nacional de maio começou na noite de terça-feira, numa celebração “atípica”, em que o Santuário de Fátima esteve vazia. Os peregrinos acompanharam as celebrações em sua casa devido à pandemia de covid-19.

A peregrinação, que decorreu esta terça e quarta-feira, realizou-se de forma inédita, sem peregrinos no recinto do Santuário de Fátima.

As celebrações, que começaram às 21h30, contaram apenas com a presença de pessoas diretamente implicadas nos diferentes momentos celebrativos.

A GNR está desde sábado a impedir o acesso de peregrinos a Fátima. O recinto do Santuário de Fátima foi encerrado: nas laterais, os portões e gradeamentos foram fechados; ao fundo, foram instaladas barreiras físicas que as autoridades estão a monitorizar em permanência para que, durante as celebrações, ninguém entrasse no recinto. Na terça-feira, foram detidos dois peregrinos.

O Santuário de Fátima pediu aos peregrinos que, não podendo estar presentes, peregrinem “com o coração”. A peregrinação de maio foi transmitida no site oficial, no Youtube e na página do Facebook do Santuário de Fátima.

Esta quarta-feira, a oração do rosário começou às 9h, na Capelinha das Aparições, seguindo-se a celebração da missa, presidida pelo cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima, terminando as celebrações com a Procissão do Adeus.

O bispo de Leiria-Fátima alertou que já se está a gerar uma pandemia mais dolorosa do que a da covid-19, “a da extensão da pobreza“, pedindo também solidariedade para combater “o vírus” da indiferença e do individualismo.

“A pandemia, com a longa interrupção da vida normal, traz terríveis consequências económicas, sociais e laborais. Já está a gerar uma pandemia mais dolorosa, a da extensão da pobreza, da fome e da exclusão social”, afirmou o cardeal António Marto.

O cardeal lembrou que as consequências económicas da pandemia já batem “à porta das Caritas diocesanas e de várias paróquias e soa a sinal de grito de alarme“.

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A “pandemia” social é “agravada pela cultura da indiferença e do individualismo“, salientando que “o vírus da indiferença só é derrotado com os anticorpos da compaixão e da solidariedade”.

Esta situação “dramática e trágica” expõe “a vulnerabilidade e fragilidade da condição humana”, frisou, considerando que essa fragilidade também exige uma união entre povos e classes, já que a covid-19 “ultrapassa todas as barreiras geográficas e todas as condições sociais, económicas, hierárquicas”.

Afirmando que “ninguém está imune”, António Marto frisou a necessidade de solidariedade perante uma pandemia que revela a interdependência entre seres humanos. “Ou nos salvamos todos juntos ou nos afundamos todos juntos”, sublinhou, recordando as palavras do papa Francisco, que defende um impulso de solidariedade para orientar a resposta mundial a uma “anunciada quebra” do sistema económico e social.

Para António Marto, este é também um tempo para refletir e repensar os hábitos e estilos de vida, vincando que “não se pode viver só para consumir”.

Perante um recinto de oração vazio, o cardeal voltou a afirmar que, apesar de para muitos esta ser uma peregrinação triste por se realizar num santuário de Fátima fechado, é também uma oportunidade para “aprender como é uma peregrinação em estado puro, o peregrinar com o coração“.

Face à ausência de peregrinos, houve algum simbolismo nos vários momentos celebrativos, como as 21 velas que representam as dioceses de Portugal e um ramo de flores que evocava os emigrantes e peregrinos dos diversos pontos do mundo.

Este ano celebra-se os 103 anos das aparições marianas, que terão ocorrido em 1917. A 13 de maio desse ano, os três pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta, terão visto a aparição de Nossa Senhora na localidade de Fátima.

Por enquanto, as celebrações de Fátima não têm data para uma reabertura total ao público. A partir da tarde desta quarta-feira, o recinto do santuário volta a ser reaberto ao público, mas não as basílicas.

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