Paulo Cunha / Lusa

No próprio dia em que as armas roubadas dos paióis de Tancos reapareceram um coronel da GNR alertou um responsável da Polícia Judiciária — Luís Neves, que é hoje diretor nacional desta polícia — para a falta de credibilidade da versão oficial dos acontecimentos.

A notícia é avançada pelo jornal Público. Segundo o jornal, fica em causa a ideia de que o primeiro aviso que chegou às autoridades foi uma carta anónima, que deu origem à investigação, cerca de uma semana depois do reaparecimento das armas. O coronel em causa dirigia a investigação criminal da GNR e é arguido no processo

Depois de aparecerem as armas, o diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Amadeu Guerra, convocou uma reunião de emergência para a Polícia Judiciária Militar explicar o que aconteceu e como chegou ao material roubado. Nesse encontro estava também presente Amândio Marques, coronel que lidera o núcleo de investigação criminal de Loulé da GNR que participou no achamento. Tal como os restantes, diz-se surpreendido com o sucedido.

Segundo o jornal Público, à saída do encontro em Lisboa, o coronel da GNR terá chamado Luís Neves. “Olha, aquela história que me venderam, não acredito minimamente nela. Vou pedir aos homens do Algarve que me façam um relatório, para saber o que andaram a fazer”, disse mais tarde, no interrogatório judicial a que foi submetido já na qualidade de arguido.

“Depois de ter recebido o relatório, Luís Neves entrou em contacto comigo para falar sobre Tancos”, descreveu no interrogatório, salientando que o documento continua a ter factos deturpados. O novo encontro deu-se em Alcabideche e o coronel voltou a alertar que o documento era falso. “Sempre disse a Luís Neves que aquilo era uma mentira pegada.” No entanto, nunca transmitiu as desconfianças

aos seus superiores hierárquicos.

Fonte da PJ reconheceu ao Público que o militar transmitiu as suspeitas nestas duas ocasiões, desvalorizando o facto das conversas não constarem do processo senão através do interrogatório do coronel. Também na acusação não há referência às suas denúncias, apesar de serem anteriores à carta anónima.

O parlamento debate esta quarta-feira o caso de Tancos, a pedido do PSD, que o requereu depois de ser conhecido o despacho do Ministério Público que acusa o ex-ministro Azeredo Lopes de denegação de justiça, entre outros crimes.

O despacho do Ministério Público sobre o furto e reaparecimento das armas de Tancos foi conhecido em 26 de setembro, em plena campanha eleitoral, sabendo-se que o antigo ministro da Defesa Azeredo Lopes é um dos 23 acusados e a quem são imputados os crimes de abuso de poder, denegação de justiça, prevaricação e favorecimento pessoal praticado por funcionário.

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