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O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, na Assembleia-Geral da ONU
O Presidente brasileiro afirmou, na terça-feira, que o país é vítima de uma “campanha brutal de desinformação sobre a Amazónia”. Sobre a pandemia de covid-19, Jair Bolsonaro considerou que o seu Governo agiu de forma arrojada.
Esta terça-feira, no discurso de abertura do debate geral da 75.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), o Presidente Jair Bolsonaro disse que o Brasil é vítima de uma “campanha brutal de desinformação sobre a Amazónia”.
Sem citar estudos científicos para comprovar as suas declarações, e contrariando diversos especialistas em meio ambiente, o chefe de Estado afirmou que a Amazónia é uma “floresta húmida e não permite a propagação do fogo no seu interior”.
“Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam os seus roçados em busca da sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”, declarou.
“O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”, disse ainda.
Sobre o combate à pandemia de covid-19, Bolsonaro disse que agiu de forma arrojada. “Desde o princípio, alertei que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade. O nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas económicas que evitaram o mal maior.”
O chefe de Estado brasileiro citou, por exemplo, o apoio de emergência em parcelas, que somam aproximadamente mil dólares [cerca de 854 euros], para 65 milhões de pessoas, recursos destinados para ações de saúde, apoio a pequenas empresas e a perda de arrecadação dos estados e municípios.
O Presidente destacou ainda que “estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença, destinou 400 milhões de dólares para pesquisa, desenvolvimento e produção da vacina de Oxford no Brasil”, frisando que “não faltaram, nos hospitais, os meios para atender os pacientes de covid-19”.
Discurso foi “delirante” e “envergonha o povo brasileiro”
“Jair Bolsonaro não fugiu do roteiro no discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas” e num discurso “calculadamente delirante, o Presidente mais uma vez expôs o país de forma constrangedora e confirmou as preocupações dos investidores internacionais que pensam em sair do Brasil”, disse, em comunicado, o Observatório do Clima.
A organização acrescentou que, “ao negar simultaneamente a crise ambiental e a pandemia, o Presidente dá a trilha sonora para o desinvestimento e o cancelamento de acordos comerciais no momento crítico de recuperação económica pós-covid”.
Mantendo a linha de colocar em causa as declarações feitas pelo líder brasileiro, Gabriela Yamaguchi, diretora de Sociedade Engajada do WWF-Brasil, considerou que Bolsonaro proferiu “uma fala cheia de acusações infundadas e ilações sem base científica que não condiz com o papel de um chefe de Estado”.
“Declarar que as queimadas são provocadas pelos índios e caboclos é a maior delas. Como um roteiro de ficção, o discurso uniu palavras-chaves das Nações Unidas com descrições de um Brasil que não existiu em 2020, em completo negacionismo da realidade do país e desconsiderando a urgência e seriedade dos desafios globais que o secretário-geral da ONU, António Guterres, tão bem descreveu”, acrescentou.
Já a Greenpeace avaliou, também em comunicado, que o Governo brasileiro está sob intensa pressão nacional e internacional devido aos números crescentes de queimadas e ações de desflorestamento, e diante de um país que arde em chamas, o discurso negacionista do Presidente “envergonha o povo brasileiro e isola o Brasil do mundo”.
“Desde que Bolsonaro assumiu o poder, o país está a transformar-se no líder mundial em desflorestamento. Segundo dados da Global Forest Watch, o Brasil foi o país que mais destruiu as suas florestas em 2019 e, este ano, os dados mostram que a situação só se agravou. Os efeitos de tamanha destruição refletem-se nas queimadas que estão a avançar sobre alguns dos principais biomas brasileiros, como o Pantanal, a Amazónia e o Cerrado.”
De acordo com o Diário de Notícias, que cruzou as conclusões de duas das principais agências de fack checking (confirmação de dados) brasileiras – Lupa e Aos Fatos –, Bolsonaro pronunciou “dezenas de meias verdades, dados infundados e, simplesmente, mentiras.”
[sc name=”assina” by=”ZAP” source=”Lusa” ]
Mais fácil apontar as verdades que o bolsomito disse.