António Pedro Santos / Lusa

Rui Rio, Miguel Pinto Luz, Luís Montenegro

Os três candidatos à liderança do PSD trocaram esta quarta-feira acusações de hipocrisia e de maus resultados em diferentes momentos da história do partido, com Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz a negarem pertencer à maçonaria, como sugeriu Rui Rio.

No primeiro debate entre os três candidatos às eleições diretas de 11 de janeiro, na RTP, o tom tornou-se rapidamente tenso, com o atual presidente, Rui Rio, de um lado, e os dois desafiadores, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz, do outro, quer fisicamente, quer nos argumentos.

“Eles os dois são conhecidos como sendo da maçonaria. Na maçonaria há pessoas por quem tenho todo o respeito, mas não consigo compreender como no pós-25 de Abril há necessidade de haver obediência secretas que não são devidamente escrutinadas”, afirmou Rio, no debate.

Na resposta, Montenegro assegurou que não pertence nem pertenceu à maçonaria e comparou Rio a um náufrago que “se agarra a uma boia furada”. “Você faz julgamentos com base em notícias, que é o contrário do que defende”, disse, citado pelo jornal Público.

Já Pinto Luz admitiu ter pertencido a esta entidade “quando tinha 20 e picos anos”, mas disse já ter saído há mais de dez anos. “Nunca me senti limitado na minha liberdade. Com a mesma liberdade que entrei, foi com a que saí, desde que tenho cargos públicos que não pertenço”, afirmou.

António Pedro Santos / Lusa

O presidente do Partido Social Democrata (PSD), Rui Rio

O líder parlamentar e presidente do PSD defendeu no pasado domingo, em Aveiro, que a Maçonaria “está um pouco por todo o lado” e a tentar “condicionar a sociedade portuguesa”, atribuindo a essa organização motivações obscuras e pouco transparentes. “Não tenho dúvidas sobre isso. Aliás, se eu não dissesse isto, era um hipócrita. Todos nós sabemos isto e ninguém tem coragem para o dizer, mas eu digo-o”, afirmou-

O antigo líder parlamentar do PSD e o atual vice-presidente da Câmara de Cascais acusaram Rio de ter tido “dos piores resultados” da história do PSD nas europeias e legislativas e de ter seguido “uma estratégia errada”, com o presidente do partido a contrapor com os resultados que os seus adversários obtiveram.

“Estes dois senhores tiveram resultados eleitorais brilhantes: Luís Montenegro foi duas vezes candidato à concelhia de Espinho e não ganhou, uma vez à distrital de Aveiro e não ganhou, agora quer ganhar as legislativas, até acho que com maioria absoluta, e a Câmara de Lisboa. Os pergaminhos que apresenta são estes”, ironizou.

Quanto a Pinto Luz, Rio recordou que, quando foi presidente da distrital de Lisboa, o PSD teve maus resultados no distrito nas autárquicas de 2013 e 2017, com valores de 22% e 11% na capital.

O líder do PSD acusou ainda os seus adversários de hipocrisia por terem feito “uma guerrilha permanente” nos seus anos de mandato.

“O senhor é que não foi um líder agregador”, respondeu Montenegro, que devolveu as acusações de hipocrisia a Rio por ter montado “uma candidatura contra” Luís Filipe Menezes no Porto em 2013 e agora andar “de beijo na boca e braço dado” com o antigo autarca de Gaia.

Quem é mais “Sá Carneirista”?

De acordo com a TSF, não houve poucas referências a Sá Carneiro, cujo 39.º aniversário de falecimento coincidiu com o debate do PSD na RTP. A certa altura, os candidatos começaram a lutar para ver quem era mais “Sá Carneirista”.

Pinto Luz acusou Rio de fazer com que o PSD perca “o ímpeto reformista” e até pegou num livro de Sá Carneiro para oferecer ao líder do partido. Falando do fundador do partido, de Cavaco Silva e de Pedro Passos Coelho como líderes que ultrapassaram o impasse em que o país estava, Pinto Luz disse que chega para “unir o PSD” com um projeto mobilizador e reformista.

José Sena Goulão / Lusa

Miguel Pinto Luz, candidato à liderança do PSD

Montenegro, que também trazia o livro “Impasse” de Sá Carneiro, chegou mesmo a ler uma passagem: “dispondo o governo de apoio parlamentar maioritário, o nosso papel, como oposição, deve ser o da crítica exigente e não o da cooperação em nome do interesse nacional, pelo contrário, a defesa deste exige de nós que desempenhemos o papel habitual de oposição em democracia, denunciando erros, apontando defeitos, apontando soluções alternativas, mas não negociando o conteúdo das leis, não efetuando acordos pontuais ou globais, não transigindo com a política do governo”. “É isso que me proponho fazer”, disse Montenegro.

Rio sublinhou que neste ponto tem uma “divergência real” e lembrou que Sá Carneiro tentou uma “convergência democrática com o PS” e, como não conseguiu, fê-la com o CDS.

Convergências: Orçamento, transportes e sistema fiscal

O Orçamento do Estado foi uma convergência no debate, mas apenas entre dois dos candidatos. Montenegro é o único que votaria contra a proposta de Orçamento do Estado do governo, com Miguel Pinto Luz e Rui Rio a admitirem que é difícil aprová-lo, mas que esperam para ver o documento.

Tiago Petinga / Lusa

Luís Montenegro, candidato à liderança do PSD

“Alguém acredita que os OE do PS vão desdizer o que está no programa do PS?”, questionou Montenegro. “Não temos ilusões, o PS não quer fazer entendimentos estruturais connosco”.

Miguel Pinto Luz criticou o peso do Estado na economia, dando o exemplo dos transportes. Luís Montenegro sublinhou “a maior carga fiscal de sempre” com a degradação dos serviços públicos a acontecer em paralelo, principalmente na saúde. Rui Rio criticou o modelo económico socialista que deveria trazer “mais receita por via de maior crescimento económico e não por maior carga fiscal”.

“Temos de virar o país para as exportações e para o investimento, mas temos de desafogar as famílias desta maior carga fiscal de sempre, temos de simplificar o sistema fiscal e dar previsibilidade. Às vezes, é melhor para o investidor dar-lhe previsibilidade do que uma baixa carga fiscal”, sintetizou Miguel Pinto Luz.

O debate terminou ao fim de 50 minutos. As eleições internas do Partido Social Democrata estão marcadas para 11 de janeiro.

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