Os moradores de Sobrado, em Valongo, realizaram mais um protesto contra o aterro local que recebe lixo de todo o país e de países estrangeiros também. Queixam-se do cheiro nauseabundo, das pragas de mosquitos e lamentam que até as “couves ficam pretas”, receando descargas na ribeira da vila e sentindo-se a viver “dentro do caixote do lixo”.

A população de Sobrado voltou a protestar por causa do aterro local, contando com o apoio do presidente da Câmara de Valongo, José Manuel Ribeiro, que acusa o Ministério do Ambiente de “falar grosso para os fracos e piar fino para os fortes”.

Em declarações à comunicação social, o autarca referiu que a empresa que gere o aterro, a Recivalongo, enviou à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) um pedido para fazer descargas numa ribeira que leva, habitualmente, pouca água e cujo caudal depende sobretudo das chuvas.

“Autorizar o lixiviado numa linha que não tem água quase sempre, é o quê? É fazer desta linha de água um esgoto a céu aberto no Século XXI, em Portugal! Ó pá, das duas uma, ou estamos todos malucos ou alguém anda a brincar connosco“, queixa-se José Manuel Ribeiro em declarações divulgadas pela SIC.

O autarca refere que essas descargas podem contaminar toda a extensão da ribeira. “Estamos a falar de 100 metros cúbicos de lixiviado produzido todos os dias, com todos os impactos de contaminação que isso tem no lençol freático“, realça, exigindo “acção” do Ministério do Ambiente.

A Recivalongo já foi “multada, recentemente, em 44 mil euros por reincidir nas descargas ilegais para a ribeira de Vilar”, acusa ainda o autarca, referindo que foi contabilizada “carga contaminante superior a 300% ao valor permitido”.

A população local queixa-se do cheiro nauseabundo, das pragas de mosquitos e lamenta que, nos seus quintais, “começa a ficar tudo preto”, como refere o morador Manuel Oliveira, de 74 anos, ao Jornal de Notícias (JN).

“Temos quintais e antigamente podíamos plantar tudo. Agora não. Começa a ficar tudo preto, com mosquitada e a morrer tudo

. Não temos nada do que queremos em casa”, realça Manuel Oliveira.

As pessoas sentem que vivem “dentro do caixote do lixo”, como destaca a presidente da Associação ambiental Jornada Principal, Marisol Marques.

Ministério acusa autarca de “falta de memória”

O Ministério do Ambiente já veio garantir que o pedido da Recivalongo para fazer descargas foi rejeitado “tendo em conta o volume que se pretendia descarregar na Ribeira e o facto de se tratar de uma linha de água com caudal diminuto, quase seco em estiagem e com qualidade inferior a bom”, como refere o gabinete de João Matos Fernandes numa nota enviada à Lusa.

Em resposta ao presidente da Câmara de Valongo, o Ministério também salienta que está “com falta de memória”, citando uma reunião a 7 de Fevereiro passado onde terá estado, a par de “representantes da APA, CCDR [Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional] e do Ministério do Ambiente e da Acção Climática”.

“O senhor presidente da Câmara Municipal de Valongo esqueceu-se que este tema foi discutido. Também não deve ter ouvido o representante da APA afirmar que não autorizava o pedido feito pela empresa da Recivalongo de deitar à ribeira do Vilar qualquer tipo de lixiviado”, sustenta ainda o Ministério.

“Neste momento, a APA está a estudar medidas alternativas“, sublinha também o gabinete de Matos Fernandes.

No final de 2019, uma comissão de acompanhamento impôs à Recivalongo diversas medidas correctivas que devem ser concluídas até ao final deste mês. O ministro do Ambiente já anunciou que no dia 28 de Fevereiro será feita uma inspecção ao aterro.

[sc name=”assina” by=”ZAP” source=”Lusa”]