José Sena Goulão / Lusa
O primeiro-ministro lançou Marcelo Rebelo de Sousa para uma recandidatura à Presidência da República. Em Belém, onde a notícia chegou com surpresa, diz-se que António Costa pode ter aproveitado o momento para gerar “ganhos políticos” e pôr na agenda um outro assunto que não o seu Governo.
Nesta quarta-feira, António Costa afirmou que espera voltar com Marcelo Rebelo de Sousa à fábrica da Autoeuropa, em Palmela, após a reeleição do atual Presidente da República, logo no primeiro ano do seu novo mandato, em 2021.
António Costa fez esta alusão à eventual recandidatura do chefe de Estado no final de uma visita de hora e meia à Autoeuropa, tendo o chefe de Estado ao seu lado, assim como o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira.
Segundo o primeiro-ministro, em relação à Autoeuropa, “estabeleceu-se uma nova tradição de que o Presidente da República e o primeiro-ministro visitam-na em conjunto”.
“Foi assim em 2016, no primeiro ano de mandato do Presidente da República, e foi agora no último ano do seu atual mandato. Tenho uma boa data simbólica a propor para fazermos uma terceira visita em conjunto e para partilharmos uma refeição com os colaboradores da Autoeuropa: A terceira data é no primeiro ano do próximo mandato do senhor Presidente da República”, declarou António Costa.
Numa outra declaração também na Autoeuropa, António Costa pareceu não ter dúvidas de que Marcelo se recandidatará e ganhará a corrida a Belém: “Como é sabido, sendo eu um otimista, não tenho a menor dúvida do que se seguirá no próximo ano”, afirmou.
“Cá estaremos todos“, disse Marcelo Rebelo de Sousa depois de ouvir o primeiro-ministro a sugerir que será reeleito nas presidenciais de 2021.
“Nós vamos ultrapassar esta pandemia e os efeitos económicos e sociais este ano, no ano que vem, nos anos próximos. E eu cá estarei, e cá estaremos todos, porque isto é um espírito de equipa que se formou e que nada vai quebrar. Cá estaremos este ano e nos próximos anos a construir um Portugal melhor”, declarou, junto a António Costa.
Depois de se “deixar entusiasmar” com a declaração de António Costa, o Presidente da República moderou o discurso, dizendo não querer aprofundar o assunto sobre uma eventual candidatura a Belém. “Cá estaremos em qualquer caso. Não nos podemos substituir à vontade do povo português“, disse, recusando precipitações.
Costa apanhou Marcelo de surpresa
De acordo com o semanário Expresso, António Costa não contou a Marcelo Rebelo de Sousa que faria uma alusão a uma eventual recandidatura a Belém durante a visita à Autoeuropa. O chefe de Estado, conta o jornal Observador
citando fontes da Presidência, foi apanhado de surpresa com uma situação que o deixou “estupefacto” e “desconfortável”.As mesmas fontes contam que António Costa levava a frase “preparada”, visando “obter ganhos políticos”. “Pode ser a conjuntura a explicar que o primeiro-ministro, cercado por mais problemas dentro do Governo do que parece, tenha decidido criar um facto político para desviar as atenções”, avançam na Presidência ao Expresso.
Mas pode existir um segundo motivo que explique a atitude de António Costa: travar eventuais candidatos socialistas. “Também pode ter sido a necessidade de arrumar esta questão e travar as veleidades de alguns socialistas que queriam um candidato próprio”.
O semanário Expresso levanta ainda uma terceira hipótese: o Presidente não exclui que António Costa tenha desejado firmar o quanto antes uma espécie de pacto com o Presidente, de quem sabe ter muito a contar nos próximos tempos, sobretudo perante a crise económica e social que se avizinha.
O jornal Observador conta ainda que até o PS foi apanhado de surpresa com a declaração de António Costa. Contudo, fontes socialistas ouvidas pelo jornal online rejeitam que se trate de um apoio direto à eventual candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.
“Não foi bem um apoio, foi mais um piscar de olho, um sinal, uma indireta”, diz-se.
Com esta declaração, entendem os socialistas, António Costa chega-se à frente em primeiro lugar, “obrigando” o PSD e até mesmo o CDS a apoiarem o Presidente. Costa “aproveitou a janela de oportunidade”, adiantando-se ao líder do PSD, Rui Rio, que disse recentemente que um eventual apoio a Marcelo surgiria após o anúncio de recandidatura.
O Observador escreve ainda que na véspera da visita à Autoeuropa, isto é, na terça-feira, já corria nos bastidores a ideia de que iria haver um “número” de António Costa com o Presidente da República – só não se sabia qual.
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