Paulo Novais / Lusa

A três meses das legislativas, têm-se colocado questões sobre a possibilidade de reedição da “geringonça” e o papel que os partidos mais à esquerda possam vir a ter caso o PS vença as eleições e avance para a formação de governo.

António Costa não se compromete com qualquer cenário, mas deixa um alerta aos partidos mais à esquerda. “O PS tem de fazer pela vida”, diz o ainda primeiro-ministro e secretário-geral do PS, em entrevista à Visão, nesta quinta-feira. Já acordos à direita, com o PSD ou o CDS, Costa descarta na totalidade.

“Todos os dias ouvimos o BE e o PCP dizerem que tudo o que aconteceu de bom foi graças a eles – e apesar do PS! E que tudo o que aconteceu de mau foi por culpa do PS. Mas, quando o PS reage, lá estão os socialistas a serem ingratos e a ambicionar a maioria absoluta, para se libertarem dos seus parceiros. Ora, chegámos a uma fase do calendário político em que, inevitavelmente, cada um puxará a brasa à sua sardinha. E o PS também tem de fazer pela vida”, assumiu António Costa.

António Costa não se mostra ingrato face ao papel que a aliança teve para sustentar a sua governação nos últimos quatro anos nem coloca de parte uma nova parceria para a próxima legislatura.

“Tenho uma regra de elementar bom senso: se as coisas correm bem, porquê mudar?”. “Para já, nesta legislatura, saímos com uma confiança reforçada que nos permite pensar que é possível esse entendimento“, esclareceu.

A possibilidade da entrada do PCP e do Bloco de esquerda num possível futuro governo do PS, parece ser “carta fora do baralho” para António Costa.

“Por vezes, é preferível manter uma boa amizade a estragá-la com uma relação amorosa falhada“, esclarece a esse propósito com uma analogia por ele já utilizada anteriormente. Já uma reedição do atual modelo só não acontecerá, do lado do PS, se algum dos parceiros colocar uma “linha vermelha” relativamente a “alguma matéria que já sabe, de antemão, ser impossível de aceitar pelos outros”.

António Costa deixa recados também aos setores que mais pressões têm exercido sobre o Governo como os professores e os enfermeiros. “Alguns setores profissionais convenceram-se de que, por ser ano eleitoral, o Governo facilmente ficaria refém da contestação social, mas enganaram-se”, atira.

António Costa dá ainda pistas sobre eventuais aumentos na função pública, visando nesse âmbito os trabalhadores com salários mais altos, nomeadamente no setor da saúde.

“O Estado tem de olhar para as condições remuneratórias dos seus quadros superiores de outra forma, no futuro”, disse, acrescentando que após o aumento dos níveis salariais mais baixos, no que respeita aos quadros intermédios e superiores, “O Estado vai ter de rever a sua política remuneratória, senão será incapaz de conseguir contratar e reter os quadros mais qualificados.

Uma das maiores críticas que tem sido feita ao Governo foca-se na falta de investimento público e na degradação dos serviços públicos. O primeiro-ministro responde com a inversão do discurso.

“O melhor teste ao sucesso desta legislatura é o seguinte: muitos daqueles que, no seu início, consideravam irresponsável o que pretendíamos fazer – e que corríamos o risco de invocar o diabo – são os mesmos que, agora, nos acusam de não termos ido suficientemente longe.”

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