José Sena Goulão / Wikimedia

Ex-primeiro-ministro e ex-líder do PS, José Sócrates

O jornal Correio da Manhã afirmou esta quarta-feira que vai, “para já”, acatar a decisão judicial que o impede de publicar notícias sobre o processo que envolve José Sócrates, mas garante que “não vai parar de escrutinar” o ex-primeiro-ministro.

“Esta decisão não vai parar o Correio da Manhã de escrutinar Sócrates”, lê-se no editorial desta quarta-feira do jornal, assinado pelo diretor-adjunto, Eduardo Dâmaso.

Segundo o mesmo texto, os advogados do jornal “estão a analisar a decisão extensa” do Tribunal da Comarca de Lisboa e, “tratando-se de uma deliberação judicial, o CM vai, para já, acatá-la” e, depois, contestá-la no lugar próprio.

O Tribunal da Comarca de Lisboa deferiu terça-feira a providência cautelar interposta pela defesa de José Sócrates para impedir a divulgação de notícias relacionadas com o processo “Operação Marquês” pelo grupo Cofina, proprietário do Correio da Manhã.

A defesa do antigo primeiro-ministro revelou que foi decidido proibir cada um dos jornalistas de “editarem, publicarem ou divulgarem, incluindo através de outros jornalistas do grupo Cofina, por qualquer modo, em suporte de papel, em suporte eletrónico ou sonoro, radiofónico, televisivo, por transcrição direta ou por qualquer outro modo indireto o teor de quaisquer elementos de prova constantes do inquérito“, que decorre no DCIAP de Lisboa, e em que José Sócrates é arguido.

O grupo Cofina inclui, entre outros títulos, o Correio da Manhã (imprensa e televisão), a revista Sábado, o desportivo Record e o Jornal de Negócios.
Para o diretor-ajunto do CM, a decisão do tribunal, conhecida na terça-feira, à noite colide “com a jurisprudência nacional e do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem”.

Decisão sobre Cofina “abre grave precedente”

O Sindicato dos Jornalistas considerou esta quarta-feira que a decisão judicial que impede a Cofina de publicar notícias sobre o processo que envolve José Sócrates “abre um grave precedente” e que leva “a constrangimentos” no direito de informar.

“A direcção do Sindicato dos Jornalistas entende que o recente caso relacionado com as publicações do grupo Cofina abre um grave precedente e provoca constrangimentos

ao exercício do direito de informar”, publicou hoje à noite aquele órgão sindical na sua página na Internet.

Para o sindicato, “são condenáveis todas as tentativas de limitar a liberdade de imprensa” e todas as tentativas de “limitar a liberdade de imprensa e de informação, valores constitucionalmente protegidos, são condenáveis”.

O sindicato salienta que “encoraja” a investigação jornalística autónoma no contexto de processos judiciais em que se verifique relevante interesse público.

Questionado pela agência Lusa sobre esta decisão judicial, o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas limitou-se a responder que “o que o juiz decidiu não foi silenciar o Correio da Manhã, mas proibi-lo de publicar ou divulgar, inclusive através de outros jornalistas do grupo Cofina, por qualquer modo”, através de qualquer suporte, por transcrição direta ou por qualquer outro modo indireto, o teor de quaisquer elementos de prova constantes no inquérito”.

José Sócrates esteve preso preventivamente no Estabelecimento Prisional de Évora mais de nove meses, tendo esta medida de coação sido alterada para prisão domiciliária, com vigilância policial, a 04 de setembro passado.

O ex-primeiro-ministro foi libertado na sexta-feira passada da medida de coação de prisão domiciliária, embora fique proibido de se ausentar de Portugal e de contactar com outros arguidos, no âmbito do processo “Operação Marquês”.

Sócrates foi detido a 21 de novembro de 2014, no aeroporto de Lisboa, indiciado pelos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção passiva para ato ilícito.

/Lusa