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O primeiro ministro da Holanda, Mark Rutte
Há um novo braço-de-ferro na União Europeia (UE) entre os países do Norte e do Sul. Tudo por causa dos famigerados “coronabonds“, instrumentos de dívida comum que países como Portugal, Espanha e Itália defendem para fazer face à pandemia de Covid-19. Alemanha e Holanda estão contra.
A postura da Holanda nesta temática foi criticada como “repugnante” pelo primeiro-ministro de Portugal, depois de uma tensa reunião do Conselho Europeu, onde não houve acordo quanto à resposta comum da UE para fazer face à Covid-19.
A génese da tensão terá sido o facto de o ministro das Finanças da Holanda, Wopke Hoekstra, ter sugerido que a UE investigasse o que justifica que alguns países não tenham verbas suficientes para lidar com os impactos económicos da crise motivada pelo coronavírus.
António Costa ficou indignado e não teve pudor em dizê-lo, criticando a falta de solidariedade de alguns países da UE e recebendo elogios de Espanha. O primeiro-ministro português lembrou palavras do passado quando o ex-ministro Jeroen Dijsselbloem acusou os países do Sul da Europa de gastarem o seu dinheiro “em copos e mulheres”.
Perante o azedume de Costa, o primeiro-ministro da Holanda, fintou a polémica. “Vou deixar passar por agora. Não faz muito sentido comentar”, referiu Mark Rutte.
Mas em declarações divulgadas pela RTP3, Rutte tratou de reforçar a posição da Holanda, garantindo, contudo, que há “solidariedade”. Mas “solidariedade não é dar dinheiro, solidariedade é dar dinheiro e depois, de ambos os lados, tentar tornar as economias mais fortes”, sustentou o primeiro-ministro holandês, lembrando que o seu país “tomou medidas extremamente difíceis nos últimos 10 anos” que lhe permitem, nesta altura de pandemia, “dar a melhor resposta possível”. “Também queremos que outros países o possam fazer independentemente”, reforça Rutte.
“Não antevejo nenhumas circunstâncias em que a Holanda aceite eurobonds“, salientou noutro momento o primeiro-ministro holandês.
A Chanceler alemã, Angela Merkel, também já se veio manifestar contra os coronabonds. “Do lado alemão e de outros lados, dissemos que esta não é a perspectiva de todos os estados-membro”, frisou Merkel, referindo o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) como o seu “instrumento preferido” para lidar com a situação de pandemia.
“Com o MEE temos um instrumento de crise que nos abre muitas possibilidades que não põem em causa os princípios básicos da nossa acção comum e responsável”, acrescentou Merkel sobre o mecanismo criado em 2012 para ajudar os países da Zona Euro que estavam em dificuldades.
Os coronabonds são instrumentos de dívida conjunta que todos os países membros da Zona Euro garantiriam. Ora, a Alemanha e a Holanda preferem recorrer ao MEE porque, dessa forma, podem impor condições mais rigorosas em troca dos empréstimos aos países que necessitem, exigindo reformas difíceis de cumprir. É precisamente isso que países como Portugal, Itália e Espanha não querem, depois de já terem sofrido as consequências da crise de 2008.
Também a França de Emmanuel Macron defende os coronabonds – a França pode ser um dos países europeus mais prejudicados pela pandemia económica provocada pela Covid-19, depois de Portugal e Itália.
O primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte terá manifestado a sua fúria com os parceiros durante o Conselho Europeu, dando um ultimato aos restantes líderes para encontrarem “uma solução adequada” no prazo de 10 dias, como relata o site Politico.
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez alinhou com Conte e pediu também uma “resposta unificada, poderosa e efectiva” contra a crise, alegando que sem ela “o impacto será mais duro” e que os seus “efeitos vão demorar mais tempo e estarão a pôr em causa todo o projecto Europeu“, ainda segundo o Politico.
“Não podem ser cometidos os mesmos erros da crise financeira de 2008 – que plantaram as sementes do descontentamento e da divisão no seio do projecto europeu e provocaram o crescimento do populismo. Temos que aprender essa lição”, referiu o gabinete de Pedro Sánchez após o encontro.
Divisão até na forma como se lida com a pandemia
Entretanto, a desunião na UE é também evidente na forma como os vários estados-membro estão a lidar com a pandemia. Se países como Portugal, Espanha e Itália implementaram medidas de isolamento muito duras, para manterem as suas populações em casa, outros países resistiram o mais possível à quarentena forçada, como é o caso da Holanda.
Este país assumiu a estratégia da “imunidade de grupo” que também foi anunciada por Boris Johnson para o Reino Unido. O primeiro-ministro britânico que entretanto ficou infectado com Covid-19 acabou por ver-se forçado a mudar de ideias, perante o aumento acelerado do número de casos de coronavírus no país.
Da mesma forma, também o primeiro-ministro holandês acabou por implementar o isolamento parcial, incentivando as pessoas a ficarem em casa o mais possível e a manterem a distância de 1,5 metros nas ruas. Contudo, ainda há estabelecimentos comerciais abertos.
A situação está a criar forte tensão na fronteira com a Bélgica, apesar de os dois países manterem estratégias bastante similares. A Bélgica adoptou apenas medidas mais restritivas relativamente aos idosos. Os belgas já alertaram os holandeses que não vão acolher pacientes seus nos hospitais da Bélgica porque podem vir a precisar de camas para o seu próprio povo.
Na Holanda, um país de 17 milhões de habitantes, há mais de 500 mortes relacionadas com a Covid-19 e mais de 8600 infectados confirmados. Contudo, o número de infectados pode ser superior, já que o país tem realizado poucos testes devido à falta de material para o efeito. O país estará a realizar apenas cerca de 2 mil testes por dia, segundo revelou o ministro da Saúde.
O epidemiologista clínico Frits Rosendaal do Centro Médico da Universidade de Leiden, na Holanda, acredita que o número de infecções detectado é só a ponta do icebergue e que os casos reais serão muitos mais, conforme declarações ao site holandês NU.nl.
Rosendaal também faz a comparação entre a situação na Holanda e em Itália, onde o Serviço Nacional de Saúde está em ruptura devido à falta de camas e de recursos para acolher tantos doentes. O epidemiologista holandês aproveitou para criticar a abordagem de Itália.
“Em Itália, a capacidade dos Cuidados Intensivos é tratada de maneira muito diferente. Lá eles incluem pessoas que não incluiríamos porque são muito velhas. Os idosos têm uma posição muito diferente na cultura italiana”, destaca Rosendaal no NU.nl.
Na Holanda, os pacientes mais idosos ficarão a receber tratamentos em casa, considerando-se que, dadas as poucas hipóteses de sobrevivência, será mais “humano” deixá-los nos seus lares.
Rosendaal refere ainda a expectativa de que o vírus circule menos durante o Verão, como o influenza, mas alerta que não é certo que assim seja.
Também “absolutamente incerto” é ter a real percepção do grau de mortalidade do vírus. “Porque ninguém sabe quantos holandeses têm ou tiveram Covid-19”, destaca o epidemiologista.
Quanto à ansiada vacina pode levar cerca de um ano e meio a ficar concluída e quando chegar vai ser algo feio de se ver, com os países “a competirem entre si” para ver quem fica com ela, como atesta o virologista holandês Menno de Jong em declarações ao jornal online Het Parool, lembrando o que aconteceu com “uma vacina contra a gripe mexicana”. “Muito tragicamente, os países pobres ficarão na retaguarda“, constata.
[sc name=”assina” by=”SV, ZAP”]
Blá, blá, blá. Lutem contra o socialismo que é o grande mal no mundo e na União Europeia. Parem de elege-los! Socialismo e suas vertentes estão acabando com a civilização ocidental. O Muro de Berlim veio abaixo mas a ideologia não acabou, ganhou força e vai se moldando conforme necessário.