Manuel De Almeida / Lusa

Foram cerca de 20 horas de interrogatório no âmbito da Operação Marquês, em que José Sócrates manteve, perante o juiz Ivo Rosa, a versão de que as avultadas quantias de dinheiro que gastou nos últimos anos foram empréstimos do amigo Carlos Santos Silva e da mãe.

“A minha mãe herdou uma fortuna de um milhão de contos em 1983 do meu avô”, contou Sócrates no interrogatório, cujos extractos são divulgados pela Sábado e pelo Correio da Manhã (CM). “A minha mãe sempre me deu dinheiro ao longo da vida”, reforçou, salientando que quando precisava ia ao cofre dela.

Sócrates foi confrontado com os elevados gastos que fez em férias, acima dos rendimentos declarados na altura. “O que fazia nesta alturas era pedir dinheiro à minha mãe para ir de férias e a minha mãe dava-me. Porque tinha-o disponível, no seu cofre“, declarou o ex-primeiro-ministro perante Ivo Rosa.

“Se não tivesse a mãe que tenho, não poderia ter feito aquelas férias”, vincou ainda, garantindo que “levava sempre 10 mil euros” em dinheiro nessas viagens.

“Senhor juiz, mas quem é que tem medo de levar 10 mil euros para as férias?“, perguntou a Ivo Rosa quando este o questionou sobre se não tinha medo de ser assaltado. “A minha mãe dava-me o dinheiro e eu levava-o”, reforçou.

Sobre os alegados empréstimos de Carlos Santos Silva, Sócrates negou que o amigo empresário lhe tenha passado para as mãos mais de um milhão de euros, conforme a acusação do Ministério Público.

Desminto em absoluto. Se levantou um milhão e tal, certamente que Carlos Santos Silva deu-lhe outro destino”, apontou, notando que “nem sabia que esse dinheiro existia”, “nem sabia que ele tinha dinheiro no BES” ou “na Suíça”.

“O engenheiro Carlos Santos Silva já era um homem rico quando eu o conheci. Tinha feito uma fortuna com a sua vida empresarial”, notou também, realçando que era ele que fazia questão de lhe pagar muitas das suas despesas.

“O Carlos Santos Silva quis pagar o funeral do meu irmão e pagou e quis pagar a Segurança Social de João Perna”, revelou, referindo-se também ao seu motorista que é um dos arguidos no processo, sob suspeita de ser um dos testas-de-ferro de Sócrates.

O ex-governante constata, ainda, que acredita que “o Carlos Santos Silva tinha um valor até onde podia ir” nos empréstimos que lhe concedia. “Eu pedia-lhe para aquilo que precisava. Todos os meses lhe falava, preciso disto e ele ia entregando o dinheiro. 4 mil euros agora, 5 mil euros depois. 10 mil euros mais tarde. Eu acho que ele tinha na sua cabeça emprestar-me até 500 mil

“, notou, frisando que nunca falou com ele “sobre o montante”.

Quanto aos depósitos em numerário da ordem dos milhares de euros que foram feitos na conta do seu irmão, Sócrates destaca que este “tinha uma vida boa” porque “quando precisava” também pedia ajuda à mãe. “O meu irmão, durante muitos anos, foi toxicodependente e a minha mãe gastou mais de 200 mil contos… o meu irmão era o menino querido”, destacou.

As heranças de Sofia Fava e do marido

Sócrates alegou no interrogatório que a mãe herdou uma “considerável fortuna” do seu avô, “dinheiro, títulos do tesouro, propriedades, apartamentos“. E “depois, com a morte do meu tio, a minha mãe herdou metade da sua fortuna, mais uns apartamentos em Cascais e títulos do tesouro”, apontou ainda. Sócrates disse ainda que a sua mãe também foi herdeira da tia-avó.

Mas também Sofia Fava, a ex-mulher de Sócrates, e o seu marido, Manuel Costa Reis, terão tido direito a heranças, conforme as alegações do ex-governante no interrogatório.

Segundo Sócrates, Fava e o marido compraram a Quinta das Margaridas, no Alentejo, com dinheiro herdado (embora tenham tido, mesmo assim, necessidade de pedir um aval de 750 mil euros, em dinheiro vivo, a Carlos Santos Silva.

“A única coisa que sabia é que quer a Sofia, quer o Manuel, estavam a tratar das heranças. O Manuel tinha uma herança do pai que pretendia resolver em tribunal, porque tinha um grande litígio com os irmãos. E ouvi dizer que ele tinha uma quinta enorme”, referiu Sócrates.

Além disso, mencionou um prédio que Sofia Fava herdara do ex-marido, além da herança do pai.

Sobre os gastos que foi fazendo ao longo dos anos, Sócrates recusou a ideia de que vivesse acima das suas possibilidades. “Nunca tive vida de luxo”, destacou, chegando a notar que só viajava em classe executiva “por respeito” a si próprio e “à dignidade do cargo” que ocupou.

[sc name=”assina” by=”ZAP”]