Mais de 800 pessoas já assinaram um manifesto a defender a obrigatoriedade da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento depois de outro manifesto, com 100 subscritores, ter vindo defender o direito dos pais à objecção de consciência para não permitirem que os filhos a frequentem.

O documento conhecido esta sexta-feira conta com o apoio da ex-eurodeputada Ana Gomes, os deputados Pedro Bacelar de Vasconcelos e Alexandre Quintanilha, a professora Teresa Pizarro Beleza, a ex-secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade Catarina Marcelino, a politóloga Marina Costa Lobo, a psiquiatra Ana Matos Pires, entre outras personalidades.

O documento “Cidadania e desenvolvimento: a cidadania não é uma opção“, que tem como primeiro subscritor David Rodrigues do Conselho Nacional de Educação e presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial -, começou a circular há dois dias por e-mail.

“O facto de se defender que seja opcional é um aprofundamento brutal das desigualdades”, disse David Rodrigues em declarações à agência Lusa, adiantando que o texto tem já o apoio de pessoas de várias áreas, incluindo professores, políticos, jornalistas, médicos, investigadores, deputados e organizações nacionais e locais.

Este manifesto surge depois de um outro que juntou quase 100 personalidades, entre as quais o ex-presidente da República Cavaco Silva, o ex-primeiro-ministro Passos Coelho e o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, contra aulas obrigatórias de Cidadania apelando para que os pais possam escolher.

O texto a favor da obrigatoriedade da disciplina alega que a ética não pode ser sujeita a objeção de consciência e critica os que defendem que a disciplina seja opcional, considerando que deve continuar a fazer parte integrante do currículo.

Os subscritores consideram ainda que a aprendizagem dos Direitos Humanos e da Cidadania não é um conteúdo ideológico, mas sim uma disciplina que permite que todos conheçam os seus direitos, respeitem os direitos dos outros e conheçam quais os deveres que colectivamente têm para construir uma sociedade que a todos respeite.

No manifesto é referido que o futuro da Terra, em termos sociais e ambientais, depende da formação de cidadãs/ãos com competências e valores não apenas para compreender o mundo que os rodeia, mas também para procurar soluções.

“Vivemos num mundo com problemas globais como as alterações climáticas, os extremismos, as desigualdades no acesso aos bens e direitos fundamentais e as crises humanitárias, entre outros, em que a solução passa por trabalharmos em conjunto, unindo esforços para encontrar soluções para os desafios que ameaçam a humanidade“, lê-se no manifesto.

Para os subscritores é conhecida, a partir de documentos produzidos por organizações internacionais, a importância da Educação para a Cidadania e dos Direitos Humanos em todos os níveis de ensino, uma importância plasmada no Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória (2017).

O Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória, defendem, é fruto de um saudável consenso quanto à importância de escola organizar os vários conhecimentos numa perspetiva holística pelo que é, neste âmbito, que consideram ser entendida a criação da disciplina Cidadania e Desenvolvimento, cujo conteúdo principal se relaciona com os Direitos Humanos e domínios como a sustentabilidade ambiental, a interculturalidade, a saúde, a segurança rodoviária, a igualdade de género.

A polémica tem origem no caso de dois irmãos de Vila Nova de Famalicão, no distrito de Braga, que faltaram a todas as aulas desta disciplina por opção dos pais, que argumentam que os tópicos abordados são da responsabilidade educativa das famílias.

No passado dia 2 de Setembro, o deputado único do Chega entregou um projecto de resolução no Parlamento a recomendar ao Governo que a Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento se torne opcional no currículo dos estudantes.

André Ventura afirma que “a Assembleia da República não pode ficar indiferente ao drama que vive a família Mesquita Guimarães, que vê o Ministério da Educação reprovar dois filhos, obrigando-os a retroceder dois anos escolares por não terem frequentado as aulas” daquela disciplina.

A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) também já se pronunciou sobre o assunto manifestando-se a favor da obrigatoriedade da Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento, considerando que a desconfiança lançada representa “um inaceitável ataque” aos docentes.

O tema foi também objecto de um artigo de opinião do secretário de Estado da Educação, João Costa, no Público, onde indica que “a cidadania não é uma opção” e que o manifesto contra aulas obrigatórias de cidadania, apelando para que os pais possam escolher, tem considerandos que partem de informação falsa e já desmentida publicamente.

Para o governante, o que se está a passar é um “manifesto político” que visa que “a cidadania seja uma opção e não um dever de todos”.

[sc name=”assina” by=”ZAP” source=”Lusa”]