Gerard Van der Leun / Flickr
Um cientista norte-americano alega que um relatório sobre o aquecimento global, publicado nos EUA durante a presidência de Barack Obama, foi elaborado com dados forjados, no sentido de influenciar as decisões da Cimeira do Clima de Paris, em 2015.
As alegações do cientista, John Bates, foram feitas numa entrevista ao jornal britânico Daily Mail e estão a causar ondas de reacções gigantescas entre a comunidade científica.
John Bates, antigo funcionário do Centro de Dados Climáticos do NOAA, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA, acusa Thomas Karl, cientista que também trabalhou neste organismo, de ter manipulado dados num estudo publicado em 2015 na Science, com o objectivo de afastar a ideia de que o aquecimento global estaria a abrandar.
O estudo de Karl assumiu um tom “alarmante” quanto ao aquecimento global, sendo classificado, na altura em que foi publicado, pela imprensa norte-americana como uma “bomba”, nas vésperas da participação dos EUA na COP21, a Cimeira do Clima de Paris.
Assinado por vários autores, com Thomas Karl à cabeça, o estudo de 2015 sugere que “a média de aquecimento, ao longo dos primeiros quinze anos deste século, foi na realidade tão rápida ou ainda mais rápida do que o que se viu na última metade do Século XX”.
Para chegar a esta conclusão, e segundo a denúncia de Bates, Karl terá ajustado dados de temperatura recolhidos por bóias de robôs, de modo a que fossem mais altos para coincidirem com dados anteriores de navios oceânicos.
“Eles tinham bons dados de bóias. E deitaram-nos fora e corrigiram-nos, usando os maus dados dos navios. Nunca se mudam os bons dados para concordar com os maus, mas foi o que fizeram – para parecer que o mar estava mais quente“, acusa Bates.
O cientista, agora reformado, também publicou as suas denúncias num artigo publicado num blogue e garante que tem provas do que diz. Bates sublinha que o estudo visou “desacreditar a ideia de pausa no aquecimento global” para “influenciar deliberações nacionais e internacionais sobre as políticas do clima”, nomeadamente na COP21 em Paris.
O Daily Mail reforça entretanto esta ideia, realçando que Thomas Karl tinha acesso a uma “linha vermelha” directa com a Casa Branca por via da sua “associação antiga” com o conselheiro de ciência de Obama, John Holdren.
Patrick Hamilton / G20 Australia
A administração Obama é acusada de “empurrar a sua dispendiosa agenda climática às custas da integridade científica”
Revolta na comunidade científica
Tanto a forma como o jornal abordou o assunto, como as declarações de Bates estão a suscitar muitas críticas da comunidade científica, e há quem considere que esta é uma tentativa de manipulação da verdade com o intuito de apoiar os cépticos que não acreditam nos efeitos trágicos do aquecimento global, como é o caso de Donald Trump.
Em Janeiro, um outro estudo, publicado na Science Advances veio ao encontro da pesquisa de Thomas Karl, negando que tenha existido qualquer pausa no aquecimento global.
Um dos seus autores, Zeke Hausfather, cientista do clima no Terra Berkeley, um projecto independente de análise de temperatura, contesta fortemente as denúncias de Bates.
“Embora os procedimentos de gestão de dados da NOAA possam precisar de melhorias, os seus resultados foram validados independentemente
e concordam com registos separados de temperaturas globais criados por outros grupos”, diz Hausfather num artigo no Carbon Brief.Hausfather defende as informações divulgadas por Thomas Karl e critica o jornalista que redigiu o artigo no Daily Mail, notando que usa um “gráfico profundamente enganoso” para manipular a opinião pública.
O cientista alerta também que as palavras de Bates em nada mudam “a nossa compreensão do moderno aquecimento ou as nossas melhores estimativas das recentes médias de aquecimento” e realça que há fortes “provas independentes” de que os novos registos da NOAA são “os mais precisos das últimas duas décadas”.
“Não muda em nada a prova de que os legisladores têm à sua disposição, quando decidem, como abordar as ameaças colocadas pelas alterações climáticas”, escreve ainda este cientista.
Trump não deixará passar a onda de dúvida…
Mas o tema não é consensual na comunidade científica e o estudo de Karl já tinha sido contestado pelo cientista canadiano do clima John Fyfe que, num artigo de 2016, no jornal Nature Climate Change, aponta que “há uma incompatibilidade entre o que os modelos do clima estão a produzir e o que as observações estão a mostrar”.
E se não há certezas absolutas no campo do clima, é seguro que Donald Trump e a sua equipa vão aproveitar as denúncias de John Bates e o espevitar das dúvidas para avançar com a reversão das medidas assinadas por Obama, aquando da Cimeira de Paris.
Para já, os republicanos vão tecendo acusações à administração de Obama, insinuando eventual interferência nesta alegada manipulação de dados.
O líder do Comité de Ciência do Congresso norte-americano, o republicano Lamar Smith, garante que já em 2015, este órgão foi alertado por “denúncias” de que “o estudo de Karl usou dados errados” e que a sua publicação foi apressada, num esforço para apoiar a agenda das alterações climáticas do presidente Obama, ignorando os próprios padrões do NOAA para estudos científicos”.
“Desde essa altura, o Comité tentou obter informação que lançasse mais luz sobre estas alegações, mas foi obstruído, a cada tentativa, pelos responsáveis da anterior administração”, acusa ainda Lamar Smith, conforme se cita no site do órgão do Congresso.
O republicano acrescenta que as denúncias de John Bates deixam a nu “os esforços da administração Obama para empurrar a sua dispendiosa agenda climática – às custas da integridade científica”.
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Ao comentador Simplório: Passados dois dias lá saiu aqui a notícia daquele senhor que lhe disse para investigar :-) John Bates.
E seria importante referir que este senhor não é um mero funcionário da NOAA. É um cientista de topo, reformado do NOAA no final deste ano, depois de uma carreira de 40 anos em meteorologia e ciência climática e um dos dois cientistas directores do NCEI (NOAA National Centers for Environmental Information), Asheville, North Carolina.
A agenda da farsa das alterações climáticas antropogénica aos poucos vai-se revelando.