Nos campos de concentração da China, os muçulmanos são sujeitos a doutrinação forçada, a tortura e até a morte. No entanto, alguns anúncios pagos no Facebook e no Twitter fazem acreditar que estes são lugares maravilhosos.
As duas gigantes tecnológicas, sediadas nos Estados Unidos (EUA), têm vindo a permitir que a media estatal chinesa espalhe informações falsas sobre os campos de concentração, revelaram esta semana as investigações do Intercept e do BuzzFeed News, referidas pelo Vox esta quinta-feira.
Os anúncios pagos visam convencer os ocidentais de que os campos na região do Xinjiang, no noroeste do país, não são locais de abuso dos direitos humanos, ao contrário do que indicam vários governos, especialistas chineses e organismos internacionais, como a ONU. Estima-se que um milhão de uigures – uma minoria predominantemente muçulmana – foram detidos e levados para esses campos desde 2017.
Na segunda-feira, o Global Times – controlado pelo Estado – publicou um vídeo patrocinado no Facebook, intitulado “Estagiários do centro de Xinjiang com esperança para o futuro”, no qual mostra ex-reclusos a cozer pão, como um exemplo das “habilidades vocacionais” que os uigures supostamente aprendem nos campos de concentração.
“Criar centros de educação e treinamento vocacional ajuda Xinjiang a manter a estabilidade social e a combater o extremismo religioso”, indicam os slides do vídeo. “Se os centros tivessem sido criados antes, menos ataques violentos tinham acontecido”.
Já no Twitter, o Global Times divulgou uma publicação com um vídeo do seu editor-chefe, que criticou os políticos e os jornalistas que condenaram os campos, dizendo: “As suas mãos estão sujas com o sangue do povo chinês que morreu em ataques violentos”, causados pelos uigures. Em 2009, tumultos étnicos resultaram em centenas de mortes, e alguns uigures radicais realizaram ataques terroristas nos últimos anos.
E acrescentou: “Um grande número de países em desenvolvimento, incluindo países muçulmanos, entende e apoia o que tem sido feito em Xinjiang. Este costumava ser um local que sofria de violência terrorista. A região recuperou a paz e o desenvolvimento”.
Outro vídeo promocional divulgado no Twitter mostra uigures a dançar alegremente nas ruas de Xinjiang, enquanto música animada toca ao fundo.
De acordo com o Vox, quando um meio de comunicação como o Global Times paga ao Facebook e ao Twitter – ambos bloqueados na China – para promover esse tipo de vídeos, milhões de telespetadores podem assistir aos mesmos, quer sigam o canal ou não. Esses vídeos, alguns dos quais já circulam desde junho, foram direcionados a utilizadores nos EUA
e noutros países ocidentais.A China também tem usado o Facebook e o Twitter para espalhar desinformação sobre os protestos em andamento em Hong Kong, tendo já sido alertadas por observadores externos sobre a situação.
Como respondem (ou não) as empresas de media social
Na segunda-feira, o Twitter posicionou-se sobre o assunto, atualizando as suas políticas de publicidade: não vai mais receber dinheiro publicitário de agências de notícias controladas pelo Estado.
A resposta do Facebook foi muito mais anémica. A empresa disse ao BuzzFeed News que continuará a aceitar esses anúncios, mas “analisará de perto” os mesmos para determinar se esses violam as suas políticas.
Essa é uma linha que o Facebook tem vindo a utilizar há anos. Na Birmânia, em 2017, utilizadores dessa rede social incitaram a violência contra os Rohingya, um grupo minoritário maioritariamente muçulmano no país, que é de maioria budista. Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas, outras milhares mortas e centenas de aldeias foram incendiadas. Foi, segundo as Nações Unidas, “um exemplo clássico de limpeza étnica”.
Depois de enfrentar meses de críticas pelo seu papel na crise, o Facebook reconheceu que tinha sido muito lento para responder às publicaçãos inflamatórias. Removeu vários utilizadores com ligações a militares e baniu quatro grupos insurgentes, que classificou como “organizações perigosas”. E prometeu fazer melhor.
Mas há apenas alguns meses, os executivos do Facebook ainda estavam a esforçar-se para combater a desinformação de uma forma mais ampla. A empresa quer permanecer neutra em ‘deepfakes’ – vídeos manipulados através de Inteligência Artificial que fazem parecer que alguém disse ou fez algo que, na realidade, não disse nem fez – mesmo que especialistas avisem que essa tecnologia pode colocar em risco as eleições de 2020.
Segundo o Vox, o Facebook parece continuar a utilizar a mesma abordagem, agora com a China. Ao invés de recusar anúncios pagos da media controlada pelo Estado, quer continuar a contar com especialistas externos para sinalizar mensagens potencialmente problemáticas, que podem ou não ser removidas, num ritmo que pode ou não ser rápido o suficiente para evitar danos.
Para os uigures e para os manifestantes de Hong Kong – e para os Rohingya antes desses -, este tipo de política negligente pode ajudar a transformar o seu país numa caixa de pólvora. Para um governo autoritário como a China, é um sonho, concluiu o Vox.
[sc name=”assina” by=”TP, ZAP”]
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