(CC0/PD) Haley Rivera / Unsplash

Quase duas semanas após a rejeição da legalização do aborto pelo Senado da Argentina, centenas de cidadãos participaram numa apostasia coletiva, no passado fim-de-semana, em Buenos Aires.

O objetivo dos participantes não passava apenas por recusar o catolicismo, mas fazer um apelo a favor do Estado laico, ao contrário do que prevê a Constituição do país.

“Preenche este formulário, coloca uma foto do cartão de identidade, outra do ato de batismo e nós vamos responsabilizar-nos pelo resto.” Na esquina das avenidas Callao e Corrientes, no coração da capital argentina, César Rosenstein dá as instruções aos futuros apóstatas.

Este membro da Coalizão Argentina por um Estado Laico (Cael) não esperava que a iniciativa tivesse tanto sucesso. “Há dez anos que lutamos pela separação da Igreja e do Estado. Mas esta é a primeira vez que eu vejo tantas pessoas prontas a renunciar coletivamente à fé católica”, diz. O princípio é simples: com alguns documentos à mão, cada um pode exigir a sua exclusão da Igreja Católica.

“Isto quer dizer concretamente que a Igreja não pode mais contar connosco como um dos seus membros. E que, nos registos paroquiais, ao lado do nosso nome, vai aparecer a menção ‘apóstata’. Mesmo que nós preferíssemos que o nosso nome fosse simplesmente apagado desses registos”, reitera Rosenstein.

“Não em meu nome”

Na longa fila de espera, a designer Marcia organiza as suas fotocópias. “Batizaram-me quando eu era bebé. Eu não tinha evidentemente a possibilidade de me opor. Fiz todos os meus estudos numa escola católica e não me reconheço nesses ensinos que considero nefastos. Recuso-me a fazer parte desta instituição e, sobretudo, recuso que a Igreja aja em meu nome!“, exclama a jovem.

No en mi nombre é justamente um dos slogans desta manifestação. Alguns organizadores exibiram a frase estampada em t-shirts. Vários outros manifestantes utilizaram também um lenço verde, símbolo da campanha nacional pela legalização do aborto na Argentina.

Há pouco menos de duas semanas, os senadores da Argentina rejeitaram com 38 votos contra 31 uma proposta de lei que visava legalizar a interrupção voluntária da gravidez – um balde de água fria no movimento feminista argentino.

“O resultado da votação gerou muita revolta. A apostasia é um gesto político forte, uma manifestação da nossa oposição à ingerência permanente da Igreja nos debates da sociedade”, afirma, indignada, Julieta Arosteguy, membro da Cael.

Um milhão de abortos ilegais por ano

Na América Latina, onde os países são maioritariamente católicos, o aborto é legalizado em poucos países: Uruguai, Guiana, Cuba, além da Cidade do México.

O país do papa Francisco – onde a Constituição indica desde o segundo artigo que o governo “apoia o culto católico apostólico romano” – autoriza a interrupção da gravidez somente em caso de violação ou se a gestação apresentar risco para a saúde da mãe.

No entanto, isso não impede que um milhão de argentinas abortem clandestinamente todos os, de acordo com as organizações feministas. Desde o início deste mês, pelo menos três mulheres morreram no país ao tentar pôr um fim à gravidez de forma clandestina.

A Igreja Católica reivindica 90% de seguidores na Argentina. No entanto, sondagens revelam que 76% da população considera-se católica. O elevado número  de fiéis permite que a Igreja obtenha a cada ano subvenções do Estado, na ordem de 176 milhões de pesos (cerca de 8 milhões de euros.).

“A Argentina é um país hipócrita. Somos todos batizados porque é o costume, casamos na igreja porque é o costume, mas poucos argentinos frequentam as missas e são verdadeiros praticantes”, avalia Julieta Arosteguy.

“Sou agnóstico. A verdade é que não acredito mais nesta instituição“, afirma Alexis, que veio com a família renunciar à fé católica. à sua frene, os seus filhos brincam com os lenços verdes da campanha pró-aborto. Apontando para as crianças, sorri: “Evidentemente, não os batizei. Farão o que quiserem quando crescerem”, diz.

A Cael vai enviar os pedidos de apostasia à conferência episcopal de Buenos Aires no próximo dia 24 de agosto.

[sc name=”assina” by=”ZAP” url=”https://ciberia.com.br/centenas-argentinos-renuncia-coletiva-catolicismo-43821″ source=”Cibéria” ]