Homem de Gouveia / Lusa

O ex-Presidente da República de Portugal, Aníbal Cavaco Silva.

Cavaco Silva diz que o livro “Quinta-feira e Outros Dias”, lançado precisamente nesta quinta-feira, é um “prestar de contas” aos portugueses, mas mais parece um ajuste de contas com José Sócrates. E no único elogio que lhe faz, critica António Costa.

Na apresentação do livro de memórias de Cavaco Silva, que ocorreu, esta quinta-feira, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o antigo reitor da Universidade Católica, Manuel Braga da Cruz, afiançou que a obra é uma “prestação de contas” e não um “ajuste de contas”, conforme cita o jornal Público.

Mas não é nada disso que parece, percorrendo as 600 páginas do livro “Quinta-feira e Outros Dias” que se debruça, em especial, sobre as reuniões entre Cavaco e José Sócrates, quando o primeiro era Presidente da República e o segundo primeiro-ministro.

São muitas as “farpas” lançadas por Cavaco a Sócrates e o único elogio que lhe faz, é para criticar António Costa e a actual solução de Governo de aliança parlamentar de esquerda a que deu posse contrariado.

“Devo reconhecer que, na definição e execução das políticas económicas e sociais, o primeiro-ministro [José Sócrates] não se deixou captar pelo PCP ou pelo BE“, escreve Cavaco, citado pelo Diário de Notícias.

“Sempre o vi bem consciente de que o caminho defendido por esses partidos seria desastroso para Portugal e para os portugueses. O modelo leninista que querem implementar só tem gerado miséria e totalitarismo”, prossegue Cavaco.

“Se o primeiro-ministro tivesse ido por aí, a herança deixada pelos governos a que presidiu teria sido muito pior”, conclui o ex-Presidente, continuando, mais à frente, as críticas ao actual governo.

“Não existe na Europa, nem tão-pouco no mundo, qualquer país que seja desenvolvido e que registe um caminho de sucesso tendo partidos de extrema-esquerda a determinar a condução da política económica”, aponta Cavaco.

Desconfianças com negócios da PT e Venezuela

No demais do livro, sobressaem as críticas e desconfianças relativamente a Sócrates, com Cavaco a abordar alguns dos negócios que são alvo da investigação da Operação Marquês.

O ex-Presidente refere, nomeadamente, o negócio da PT da venda da Vivo à Telefónica, e a posterior compra da brasileira Oi, considerando que era para “desconfiar”

e sublinhando que avisou Sócrates de que seria um mau negócio, adianta o Correio da Manhã.

Os negócios da PT estão sob suspeita da Justiça, no processo que implica José Sócrates, e o Ministério Público acredita que Ricardo Salgado terá pago 40 milhões de euros a Sócrates e Zeinal Bava, ex-CEO da telefónica, para “enterrar” a empresa.

Cavaco ainda diz que desconfiava também, da relação entre Sócrates e o então Presidente da Venezuela, Hugo Chávez. “Quanto mais via o entusiasmo do primeiro-ministro com os negócios das empresas portuguesas com a Venezuela, mais desconfiado eu ficava. Não me enganei”, atira Cavaco a propósito de outro caso que é alvo das investigações da Operação Marquês e que envolve também o Grupo Lena.

Sócrates queria Cavaco a negociar com a Troika

No livro, Cavaco faz também a revelação surpreendente de que Sócrates queria que fosse o ex-Presidente a liderar as negociações com a Troika, composta por Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, depois da sua demissão do cargo de primeiro-ministro.

“Respondi-lhe que eu não faria diligências absurdas. Lembrei-lhe que o Presidente da República não tinha competência nem meios para o efeito e acrescentei que o Governo não podia fugir às suas responsabilidades”, escreve Cavaco, segundo a transcrição do Público.

Cavaco relata que Sócrates não queria assinar o acordo com a Troika e que teve que empreender esforços para “o obrigar a pedir o auxílio financeiro”, salienta o jornal.

Sócrates terá ainda sugerido a Cavaco que, se considerasse que “não estava a lidar bem com o problema da obtenção dos meios de financiamento do Estado, poderia nomear um outro Governo, ao qual nem o PS nem ele próprio colocariam quaisquer obstáculos”, escreve o ex-chefe de Estado.

“Senhor primeiro-ministro, não vale a pena desviar a conversa e falar em absurdos constitucionais”, foi a resposta dura de Cavaco, segundo o próprio.

Para breve, o ex-Presidente da República promete um segundo livro que se vai centrar nas suas relações com Passos Coelho e com António Costa.

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