Nuno Veiga / Lusa

O ex-Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, intervém durante a sua aula na 15.ª Universidade de Verão do Partido Social Democrata (PSD), em Castelo de Vide

O ex-Presidente da República voltou ao espaço político, esta quarta-feira, com uma aula na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, onde lançou farpas ao Governo socialista e ao seu sucessor, Marcelo Rebelo de Sousa.

Cavaco Silva defendeu hoje que, na zona euro, “a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia” e os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista “acabam por perder o pio ou fingem que piam”.

Numa aula na Universidade de Verão do PSD, o ex-Presidente da República afirmou que hoje “é corrente apresentarem-se três casos” de países onde a realidade tirou o tapete à ideologia, enumerando França e Grécia mas sem se referir explicitamente a Portugal.

“Os governos dos países da zona euro, ao chegarem ao poder, podem começar com alguns devaneios revolucionários mas acabam por perceber que a realidade tem uma tal força que, ou através do aumento de impostos indiretos que anestesiam os cidadãos, cortes nas despesas públicas de investimento, medidas pontuais extraordinárias e cativações das despesas correntes e consequente deterioração serviços públicos ou contabilidade criativa, acabam sempre por conformar-se com as regras europeias de disciplina orçamental”.

Para o ex-chefe de Estado, esta projeção da realidade “tem uma tal força contra a retórica dos que, no Governo, querem realizar a revolução socialista, que eles acabam por perder o pio ou fingem apenas que piam, mas são pios que não têm qualquer realidade e refletem meras jogadas partidárias”.

“Aqueles que ainda piam, fingem que piam mas não atribuam a esses pios qualquer credibilidade porque não são mais do que jogadas partidárias“, defendeu.

Críticas ao Governo de António Costa

Segundo o Diário de Notícias, o ex-chefe de Estado levou a cabo uma “conferência devastadora”, destacando, por exemplo, a forma como o Governo vetou três indicações do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas para o Conselho de Finanças Públicas (CFP).

No caso do CFP, está em causa um “retrocesso da transparência da nossa democracia” se “o poder político conseguir controlar estas entidades” e até já há “vozes credíveis” que dizem que “a censura está de volta”, afirmou.

“Confesso que nunca imaginei que as propostas do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas pudessem não ser aceites pelo Governo de Portugal”, continuou Cavaco.

E lançou críticas à geringonça: não é “com cativações e consequente degradação dos serviços públicos, cortes no investimento, medidas extraordinárias e engenharia orçamental criativa” que se põe o país a crescer, cita o Expresso

.

Pelo contrário, Cavaco mostrou-se preocupado com o rumo da carga fiscal (“o nosso sistema fiscal perdeu lógica e é fruto do improviso” e avisou que Portugal se arrisca “a ser remetido para a causa da União Europeia” no que toca ao crescimento.

Farpas a Marcelo Rebelo de Sousa

Em Castelo de Vide, no distrito de Portalegre, também houve tempo para lançar farpas ao seu sucessor, Marcelo Rebelo de Sousa, embora sem o citar de forma explícita.

O ex-Presidente elogiou fortemente a política de comunicação do atual Presidente francês, Emmanuel Macron, que “cortou o acesso generoso dos jornalistas políticos ao Eliseu”, disse “não à promiscuidade no relacionamento com jornalistas” e recusou fazer deles os seus “confessores”, cita o diário.

Cavaco defendeu que num Chefe do Estado a palavra deve ser “rara”, deve comportar-se como Júpiter, “um Deus de palavra rara no seu Olimpo”, uma perspetiva que o DN vê como uma espécie de auto-retrato daquilo que foi a sua Presidência.

“A sua estratégia [de Macron] contrasta com a verborreia frenética da maioria dos políticos europeus dos nossos dias, ainda que não digam nada de relevante”, acrescentou, e que “não passa pela cabeça de ninguém que telefone a um jornalista para lhe passar uma informação”.

Cavaco foi recebido pelo presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, que se deslocou a Castelo de Vide de propósito para assistir à aula do ex-Presidente e ex-primeiro-ministro.

À chegada à Universidade de Verão do PSD, Cavaco disse que veio diretamente de Albufeira, tendo-se levantado às seis da manhã para marcar presença nesta iniciativa de formação de jovens quadros.

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