World Economic Forum / Flickr
O primeiro-ministro britânico, David Cameron
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse hoje que uma sociedade livre tem o direito de ironizar com a religião, discordando da opinião do papa Francisco, que considerou existirem limites para a liberdade de expressão.
“Acho que numa sociedade livre existe o direito de ser ofensivo com a religião dos outros”, disse David Cameron, numa entrevista ao canal de televisão norte-americano CBS.
“Eu sou cristão. Se alguém diz algo ofensivo sobre Jesus, poderia considerá-lo ofensivo, mas numa sociedade livre não tenho o direito de libertar a minha vingança” sobre essa pessoa, adiantou.
David Cameron, que na sexta-feira esteve reunido com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em Washington, afirmou, ainda, que o seu trabalho é “fazer cumprir a lei” e não dizer a um jornal se pode ou não fazer uma publicação.
Na quinta-feira, o papa Francisco defendeu que a liberdade de expressão é um direito fundamental, que não permite “insultos à fé dos outros”, acrescentando que “matar em nome de Deus” é “uma aberração”.
“Não podemos provocar, não podemos insultar a fé
dos outros, não podemos ridicularizá-la”, disse aos jornalistas a bordo do avião, que levou o papa de Colombo para Manila, quando questionado sobre as caricaturas do semanário satírico francês Charlie Hebdo, alvo de um atentado que causou 12 mortos, em Paris.A liberdade de expressão deve “exercer-se sem ofender“, disse, sublinhando que expressar-se era um “direito fundamental”.
“Todos têm não apenas a liberdade, o direito, como também a obrigação de dizer o que pensam para ajudar o bem comum. É legítimo usar esta liberdade, mas sem ofender”, insistiu o papa, pedindo verdade, principalmente na atividade política.
“Se o meu bom amigo Dr. Gasparri ofender a minha mãe, deve preparar-se para levar um soco. É normal, é normal”, acrescentou o papa Francisco, na que terá sido a mais polémica das suas considerações.
ZAP / Lusa
Cameron tem razão. O Papa demonstrou que por mais progressista que sejamos há sempre um limite para além do qual não somos capazes de pensar. Nesta questão foi extremamente conservador, com o é próprio dos líderes religiosos e das religiões, que cerram fileiras à volta de um conjunto de dogmas. Contudo, convém distinguir humor de ofensa. A ofensa não é humor. Nenhum humor, por mais ousado que seja, será ofensivo. Só tem capacidade de humor quem é capaz de rir de si próprio (o que é muito mais difícil do que se pensa). Sentir-se ofendido em nome próprio ou do coletivo a que se pertence é sinal de entorpecimento racional. Nessa ocasião devemos parar para pensar e nos libertarmos dos preconceitos. Só os ditadores e os regimes totalitários vêm no humor um inimigo público. Não deixemos as democracias seguir por esse caminho. Se seguirem deixarão rapidamente de o ser.