António Cotrim / Lusa
A SIC finca o pé e pretende manter “Supernanny” no ar, apesar da onda de críticas em torno do programa. O caso já chegou à política com o Bloco de Esquerda a pedir ao Governo para fazer “pressão” para a suspensão do formato.
O Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda enviou ao ministro da Cultura uma missiva, na qual questiona o Executivo quanto à sua posição em relação ao “Supernanny”, nomeadamente para saber se considera que o programa viola os direitos das crianças, como acusou a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens.
Neste documento, o BE, como cita o Diário de Notícias, entende que o programa da SIC “devassa a vida de crianças” que se encontram numa “situação de exposição e fragilidade emocional apenas por decisão de outrem, neste caso as mães e os pais, vendo as suas emoções exploradas para fins comerciais ou, dito de outra forma, de audiência”.
Assim, para evitar a “violência” da exposição das crianças, o BE apela à intervenção do Governo, considerando que “tem a responsabilidade de se pronunciar e de fazer algum tipo de pressão”, como diz a deputada bloquista Sandra Campos ao jornal.
“A lei não está propriamente em incumprimento, por haver autorização dos pais”, sublinha Sandra Campos, salientando que há “um problema ético”.
“Por exemplo, na Lei de Protecção de Crianças e Jovens está previsto que haja protecção da identidade das crianças institucionalizadas, para que não possam ser identificadas”, destaca a deputada, notando que “podia ao menos haver esse cuidado” no programa, para “proteger a identidade das crianças através da utilização de filtros e de elementos identificativos”.
O BE admite avançar com uma proposta legislativa para “proteger as crianças deste tipo de exposição”, realça Sandra Campos.
Maltrato de uns e hipocrisia de outros…
Pelas redes sociais, continuam a ser escritas muitas críticas ao programa e há já uma petição a apelar ao seu cancelamento que foi assinada por mais de 400 pessoas.
Para o psicólogo Eduardo Sá, o reality show promove um “maltrato com patrocínio”, conforme escreve num artigo de opinião no Público. Este profissional considera que o “Supernanny” “acaba por expor, denegrir e estigmatizar uma criança”, “por mais que a intenção dos pais possa não ter ido no sentido de lhe provocar dolo ou danos”.
Eduardo Sá apela ao Ministério Público para que “actue e proteja as crianças expostas, dado que estes pais terão protagonizado, aos olhos de todos, actos susceptíveis de serem interpretados como de negligência e de maltrato”.
Já a psicóloga e coach parental Cristina Valente prefere destacar “a parte positiva desta polémica”, notando que está a permitir “falar de educação parental de forma massificada”, diz à revista Notícias Magazine.
A psicóloga denuncia também a “hipocrisia” do “excesso de preocupação” de alguns pais que têm criticado o programa. “A maior parte dos pais expõe as crianças no Facebook e permite-lhes estar na rede social antes da idade legal”, aponta, frisando que este tema “é que merece ser discutido”.
“Tal como merece ser discutido por que razão os pais levam as crianças ao psicólogo em vez de se submeterem eles a esse processo doloroso”, acrescenta.
“Os pais de hoje são, na história da Humanidade, aqueles que mais se preocupam com a parentalidade, mas aqueles que menos se preocupam com a parentalidade como relação, que exige o tempo que eles sentem não ter. A falta de tempo traz-lhes culpa e a culpa fá-los agir de acordo com essa culpa”, constata ainda a psicóloga.
Produtora confirma pagamento aos pais
Entretanto, a produtora do reality show confirmou ao Jornal de Notícias que todas as famílias que participam no “Supernanny” recebem “uma compensação no valor de mil euros”, “como forma de compensar algumas despesas inerentes à gravação do programa”, que decorre na casa das famílias ao longo de uma semana.
Ao JN, uma fonte do canal de televisão garante também que o programa vai “manter-se na grelha da SIC”. “Até este momento não estamos sequer a ponderar retirá-lo da antena”, sublinha essa fonte.
A estação terá mantido o formato na gaveta durante 12 anos, conforme anunciou o Correio da Manhã, para ponderar todas as implicações legais envolvidas. Assim, a SIC ter-se-á preparado bem para o impacto que agora está a causar.
[sc name=”assina” by=”SV, ZAP”]
É a democracia no seu melhor, dantes chamava-se censura...
Para quem não entendeu, estou a ser irónico.