Mário Cruz / Lusa

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins

Contra o “tacticismo”, militantes do Bloco de Esquerda, incluindo dois irmãos de Francisco Louçã, fundadores do partido, decidiram afastar-se e apontam as razões numa extensa carta enviada à mesa nacional.

“Resolvemos deixar o Bloco porque não podemos ignorar o caminho de institucionalização dos últimos anos que transformaram o partido, de instrumento de luta política, num fim em si mesmo”, começam por referir na carta os bloquistas que esta terça-feira tornaram pública a sua desvinculação do partido liderado por Catarina Martins.

A carta, revelada num primeiro momento pelo jornal i foi assinada, entre outras personalidades, pelos irmãos do antigo dirigente Francisco Louçã – Isabel Louçã e João Carlos Louçã e é feita de duras críticas.

No capítulo da “institucionalização do partido”, escrevem que “o tacticismo de decisões, o jogo da comunicação na sua forma burguesa, a ausência de qualquer ativismo local inserido numa estratégia de construção do partido, a progressiva ausência de pensamento crítico acompanhada pela hostilização da divergência interna e profundo sectarismo com outras forças de esquerda, transformaram o BE num projeto reformista centrado na sua própria sobrevivência”.

Depois de um parágrafo dedicado à denuncia da “resposta tíbia” do Bloco à questão do Bairro da Jamaica, os agora ex-bloquistas falam mesmo em expulsão de militantes e em perseguições.

“Sem espaço para a construção coletiva, perseguindo e expulsando militantes, manipulando eleições internas de forma a garantir a ficção de um partido coeso, ao mesmo tempo que a grande maioria dos e das aderentes se abstém em todos os processos de debate e decisão onde imperam os acordos de cúpula, o Bloco tornou-se numa organização hierárquica e cristalizada”, lê-se.

O grupo considera ainda que o partido “deixou de servir” para “pensar coletivamente os caminhos da emancipação, deixou de ser capaz de uma prática política coerente com as tradições comunistas, socialistas ou libertárias, deixou de ser capaz de transformar esperança militante em energia transformadora”.

O grupo argumenta que “a esquerda que varreu o projeto revolucionário para debaixo do tapete, numa tentativa de ganhar respeitabilidade, não será assim tão diferente da esquerda que dele abdicou há muito” e garantem: “Pela nossa parte continuaremos o combate, pelos meios ao nosso alcance, para uma alternativa que não se limite a gerir o sistema existente, mas que procure os caminhos para sua superação revolucionária”.

Apesar de terem experiências e sensibilidades políticas diferentes, o grupo que assina a carta tem em comum o facto de ser crítico da direção há vários anos. Nas últimas Convenções do BE, uma maioria dos signatários da carta era, aliás, subscritora das moções minoritárias críticas do rumo seguido pelo partido.

Além dos irmãos de Francisco Louçã, assinam o documento Alex Gomes, Alistair Grant, Ana Margarida Tavares dos Santos, André Rodrigues Pereira, Ângela Patrícia Teixeira Fernandes, Elisabete Figueiredo, Filipe Teles, Irina Castro, João Azevedo, João Freitas, João Rodrigues, José Viana, Leonardo Silva, Maria da Graça Pacheco, Maria Emília Gomes, Maria José Martins, Mário Martins, Nuno Pacheco dos Santos Costa, Paula Coelho, Paulo Martins, Pedro Santos Costa, Ricardo Cabral Fernandes, Sérgio Vitorino e Tiago Braga.

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