Paulo Cunha / Lusa

O ex-ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, com o primeiro-ministro, António Costa.

“Todo este lodaçal tem de ser julgado”. É deste modo que o juiz Carlos Alexandre justifica a ida a julgamento dos 23 arguidos do processo de investigação a Tancos, incluindo o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes. Um caso que António Costa comentou de forma jocosa no programa do humorista Ricardo Araújo Pereira na SIC, o que deixou magistrados e juízes do Ministério Público indignados.

Durante a participação no programa de televisão “Isto é gozar com quem trabalha”, o primeiro-ministro falou do caso Tancos como uma “narrativa” e um “crime original”, brincando que “o crime verdadeiramente grave foi recuperar as armas“.

Estas palavras “caíram mal junto de juízes e magistrados do Ministério Público”, conforme apurou o jornal i.

Fontes anónimas ouvidas pela publicação consideram que os termos que Costa usou “não são formas de se tratar as coisas”. “Mandar bitaites em programas humorísticos? Um julgamento de um ex-ministro e isto é encarado com esta leviandade?”, questiona uma dessas fontes não identificadas.

Esta mesma fonte nota que Costa chegou a dizer que não se devia julgar o caso na praça pública, mas que acaba por fazer “apreciações sobre o processo na praça pública”.

A Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) e o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) não quiseram comentar as declarações do primeiro-ministro.

“Todo este lodaçal tem de ser investigado”

O juiz Carlos Alexandre decidiu, na semana passada, que todos os arguidos do processo devem ir a julgamento, inclusive Azeredo Lopes. O super-juiz aponta o ex-ministro da Defesa como “essencial a toda a engrenagem”

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Carlos Alexandre é “contundente e mordaz” na sua decisão, utilizando palavras fortes e, muitas vezes, com “laivos de ironia”, conforme destaca o Expresso que teve acesso ao acórdão.

“Todo este lodaçal tem de ser investigado”, considera o juiz, notando que a ideia de recuperar as armas prometendo aos autores do roubo que escapariam às rédeas da Lei é uma “visão um pouco perversa e até mesmo doentia“, mas constituiu um plano “querido e assumido” pelo ex-ministro.

O processo dá ideia de que “vale tudo num Estado de Direito Democrático”, aponta ainda Carlos Alexandre.

“Isto é um processo-crime. Transformou-se num lodaçal”, repete também quando fala de como Azeredo Lopes reagiu ao descontentamento da ex-Procuradora-Geral da República Joana Marques Vidal sobre a actuação da Polícia Judiciária Militar no dia em que as armas foram “encontradas”, uma vez que o facto não foi reportado ao Ministério Público.

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