Miguel A. Lopes José Sena Goulão / Lusa
André Silva (PAN), António Costa (PS)
António Costa e André Silva estiveram na SIC para protagonizar mais um frente-a-frente marcado por questões ambientais e alterações climáticas. No debate desta quarta-feira ficou claro que os dirigentes dançam o mesmo tango, ainda que não acertem no ritmo.
O debate entre António Costa, do PS, e André Silva, do PAN, revelou a proximidade existente entre os dois dirigentes partidários no que toca a matérias orçamentais. No capítulo ambiental, André Silva até elogiou o socialista relativamente à “evolução positiva” do PS durante esta legislatura, apesar de ter ficado patente as divergências que subsistem na agricultura e turismo intensivos.
“Tem havido por parte do PS, nos últimos quatro anos, uma evolução positiva do PS nas matérias ambientais”, reconheceu o deputado ecologista, atribuindo os louros à oposição feita pelo PAN no Parlamento, que conseguiu levar os socialistas a tomar posições mais favoráveis ao ambiente.
Ainda assim, André Silva não tardou em apontar “algumas matérias” sobre as quais o PS peca por ser “pouco ambicioso”. “Coloca a primazia do crescimento económico sobre a conservação dos habitats e dos ecossistemas”, atirou, dando o exemplo prático do ritmo demasiado lento de encerramento das centrais de carvão.
Costa disse estar comprometido com as questões ambientais – tanto que até criou o ministério da transição energética -, mas advertiu que “não podemos comprometer-nos com o encerramento das centrais a carvão sem haver alternativas seguras” que não causem uma “disrupção” do abastecimento do país.
Ficou claro que o tango é o mesmo, ainda que dancem a um ritmo distinto: “Nos objetivos não há uma divisão entre nós. Há talvez uma divergência quanto ao ritmo“, admitiu o atual primeiro-ministro.
E quem fala em ritmo, pode falar também em datas. Enquanto que André Silva quer um Governo capaz de se comprometer de forma “mais exigente” com a meta da neutralização carbónica até 2030; Costa afirma que o atual Governo tem “metas muito ambiciosas” tendo em vista 2030, mas aponta para 2050 porque prefere “compatibilizar bons resultados na descarbonização com a transição económica”.
O dirigente do PAN colocou o trunfo em cima da mesa e voltou a acusar o PS de hipotecar as gerações futuras, “porque coloca a primazia do crescimento económico relativamente à conservação dos habitat e dos ecossistemas”. Além disso, contrariando Costa, garantiu que “é perfeitamente possível do ponto de vista económico e de resiliência da rede” fechar as centrais a carvão até 2023.
Na resposta, Costa procurou também a vantagem, lembrando que “Portugal foi em 2016 o primeiro país a nível mundial a assumir o objetivo da neutralidade carbónica em 2050. Só a Finlândia e a Suécia têm metas mais ambiciosas”. Se encerramento for possível mais cedo, será, apesar de o primeiro-ministro preferir “um compromisso razoável“.
Sobre a declaração de emergência climática, que o PAN e o Bloco propuseram e que o PS chumbou no Parlamento, Costa prefere falar numa “declaração proclamatória”. Ainda assim, defendeu-se com as medidas que o seu Governo “assumiu e executou”, como a passagem dos transportes urbanos ou a energia para o ministério do Ambiente.
O olival intensivo do Alentejo divide (e não é pouco)
Na área do turismo, o PAN defende quotas de entrada de visitantes de acordo com limites de carga, algo a que Costa não tem medo de dizer: “Não faz sentido”.
“O que temos de fazer com o turismo é a sua diversificação. Durante muitos anos éramos um destino de sol e praia, muito centrado no Algarve e Madeira, hoje temos turismo urbano, que é muito relevante, e cada vez mais um turismo de natureza que é cada vez mais importante e que deu enorme impulso ao desenvolvimento de todas as regiões do Interior”. O PS dá prioridade à revitalização de todo o espaço do mundo rural, “e li no programa que o PAN também dá”.
Desta vez, a música parou e os dirigentes pararam também de dançar. “Afasta-nos este modelo económico de crescimento ilimitado do faz-primeiro-e-remedeia-depois“, disse André Silva, apontando que esta fórmula é seguida tanto no turismo como na agricultura, em particular com o regadio e o olival intensivo.
“O PS está a transformar o Alentejo num olival intensivo com gasto de água absolutamente excessivo e que não é admissível num contexto de alterações climáticas. É uma visão completamente distinta que nos separa.”
Os pontos divergentes tardaram em surgir, mas vieram à tona nos últimos minutos de debate. “O Alentejo tem 3 milhões hectares, a área de olival são 170 mil hectares, o olival intensivo é 1,5% do conjunto de olival do Alentejo
. Temos de ter visão equilibrada dos diferentes objetivos. Não podemos ter um regime económico depredador, mas não podemos deixar de ter um regime económico que gere riqueza e auto-suficiência para o país”, respondeu António Costa, recorrendo aos números como os seus maiores aliados.André Silva não ficou convencido e insistiu que “o PS não está a aproveitar os recursos, está a depredar os recursos, está a colocar em causa a sustentabilidade do país e dos recursos naturais”.
Concordaram em discordar. “Convergimos em muita matéria. A nossa divergência começa no ponto do exagero. E quando fazemos um drama de 1,5% da área do Alentejo…”, atirou António Costa. Ainda assim, ficou claro que esta não é uma diferença com peso suficiente para impedir um eventual acordo entre os partidos.
Com André Silva presente, o Ambiente é pano de fundo
O ambiente é quase sempre o único tema dos frente-a-frente de André Silva com outros líderes políticos. “Matérias como o ambiente e o combate às alterações climáticas só se abordam quando está presente o PAN“, admitiu o próprio dirigente.
A jornalista Clara de Sousa ainda tentou falar sobre Europa, mas as respostas de André Silva pendiam sempre para o ambiente.
Quando discutiam os pelouros que caberão a Elisa Ferreira na futura Comissão Europeia, a tendência repetiu-se: “Espero que Elisa Ferreira vá mais além do que defender os interesses de Portugal”, disse André Silva contando com o apoio de António Costa. “O combate às alterações climáticas não se pode circunscrever a Portugal e à União Europeia”, continuou o dirigente do PAN.
“O meu filho nunca pediu nada ao pai”
Na última pergunta dirigida ao primeiro-ministro, Clara de Sousa quis saber o que faria António Costa se um ministro convidasse o filho do chefe de Governo, que está a caminho de se tornar presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, para um gabinete ministerial.
Não escondendo a sua surpresa, disparou: “Nenhum membro do Governo convidaria o meu filho e o meu filho não aceitaria trabalhar num gabinete do Governo presidido por mim.”
“Não é uma questão de ser prejudicado. É apenas uma questão de bom senso. Na minha família somos todos independentes e pensa cada um pela sua cabeça”, continuou António Costa, acrescentando que a SIC nunca deixou de ser independente pelo facto de o seu irmão, Ricardo Costa, ser diretor.
“Não é por causa do meu irmão que foi diretor desta casa, que esta casa alguma vez deixou de ser independente da forma como lida relativamente a mim ou ao Governo.”
Já André Silva foi questionado sobre se aconselharia um familiar seu que fosse vítima de um crime violento a reconciliar-se com o seu agressor, uma pergunta alusiva à proposta polémica do partido que previa reconciliação para crimes violentos, que entretanto o PAN alterou.
“A proposta do PAN visa implementar em Portugal o que já se faz lá fora em termos de justiça regenerativa, permitindo que vítimas e agressores, que assim o queiram e entendam, possam ficar em paz” depois de cumprida a pena. “Se acontecesse a um familiar meu, não ia obrigar nem convencer ninguém a fazê-lo, mas se houvesse essa possibilidade, e alguém da minha família, o quisesse, muito bem”, assumiu.
O debate desta quarta-feira foi um jogo amigável, desalinhado em termos de ritmo, mas convergente em quase tudo. Não restam dúvidas de que, depois das eleições, sem “dramas” e tangos à mistura, os dois dirigentes poderão conversar.
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