Tiago A. Pereira / Flickr
Um empresário agrícola processou o Ministério da Educação por ter chumbado os seus filhos, de 15 e 12 anos, contrariando uma decisão dos Conselhos de Turma da escola que frequentam, após ter alegado a Objecção de Consciência para os impedir de participarem nas aulas da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento.
Estão em causa dois estudantes do Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco, em Famalicão, no distrito de Braga. Os dois jovens, de 15 e 12 anos, são alunos do Quadro de Honra da escola, com uma média de 5 valores e já participaram em Olimpíadas educativas da Matemática e de Português.
Contudo, os dois jovens não frequentaram as aulas de Cidadania e Desenvolvimento porque os pais alegaram a Objecção de Consciência, não autorizando a sua participação nas mesmas desde que a disciplina começou a ser leccionada em 2018/2019.
Este pai de seis filhos, Artur Mesquita Guimarães, colocou dois processos no Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga depois de ter recebido um despacho do Ministério da Educação (ME) que determina que os alunos devem ficar retidos dois anos pelo facto de nunca terem frequentado a disciplina que é de carácter obrigatório.
Assim, o filho de 15 anos terá que recuar do 9º ano para o 7º ano, enquanto o filho de 12 anos terá que passar do 7º ano para o 5º.
Este pai assegura que comunicou à escola e às autoridades de Educação, desde o arranque da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que não autorizaria que os dois filhos frequentassem a disciplina.
No ano lectivo 2018/2019, foi decidida a passagem de ano dos dois estudantes em Conselho de Turma, considerando que são “alunos aplicados e participativos”, como vinca este pai no jornal local Notícias Viriato.
Mas no princípio deste ano lectivo 2019/2020, o empresário recebeu um despacho do Secretário de Estado da Educação, João Costa, a determinar que “ou os filhos repunham todas as aulas de Cidadania e Desenvolvimento” deste ano e do ano anterior, ou iriam reprovar dois anos, como relata Artur Mesquita Guimarães.
O empresário sublinha que os filhos são “bons cidadãos” e que têm média de 5, além de ganharem prémios em “Olimpíadas da Matemática, da Química, de Português”.
“Foi decidida a passagem [de ano] deles em Conselho de Turma e até passaram com excelentes notas”, sustenta o empresário no Notícias Viriato, frisando que o despacho do ME visa a “expropriação” das suas “competências” enquanto pais.
O despacho do ME é considerado “ilegal e inconstitucional” pelos advogados do empresário agrícola que continua a contestar a decisão do ME.
Artur Mesquita Guimarães também lamenta que os seus filhos que têm notas excelentes sejam chumbados por não terem frequentado a disciplina quando “os alunos são empurrados a passar, particularmente até ao 9º ano, mesmo sem saber e mesmo faltando”.
Disciplina ensina Educação Ambiental e Igualdade de Género
A Direcção Geral de Educação (DGE) explica que as aulas de Cidadania e Desenvolvimento visam “preparar os alunos para a vida, para serem cidadãos democráticos, participativos e humanistas, numa época de diversidade social e cultural crescente, no sentido de promover a tolerância e a não discriminação, bem como de suprimir os radicalismos violentos”.
A disciplina tem como conteúdos “obrigatórios para todos os níveis e ciclos de escolaridade” os Direitos Humanos, a Igualdade de Género, a Interculturalidade, o Desenvolvimento Sustentável, a Educação Ambiental e a Saúde.
Além disso, inclui como temas de trabalho “em dois ciclos do ensino básico”, pelo menos, a Sexualidade, os Media, a participação democrática e a segurança rodoviária, prevendo como conteúdos opcionais “em qualquer ano de escolaridade” o empreendedorismo, o mundo do trabalho, o bem-estar animal
e o voluntariado.Artur Mesquita Guimarães considera que Cidadania e Desenvolvimento é, assim, uma disciplina que aponta para a “percepção do mundo, do que é o homem, do comportamento do homem”, conforme declarações ao Notícias Viriato.
O empresário agrícola conclui, deste modo, que a disciplina “tem a ver com as convicções de cada um e expropria aquilo que são as convicções e direitos subjectivos [dos pais] e que estão consignados na Constituição da República“.
“O Estado quer substituir-se ao papel dos pais”, lamenta ainda Artur Mesquita Guimarães, notando que a disciplina “actua sobre temáticas que não são curriculares, não preparam os alunos para uma actividade concreta”, mas que “entram por aquilo que é a liberdade de consciência de cada um, a educação da consciência“.
“Não prescindimos do direito que temos de educar os nossos filhos, nem delegamos em ninguém esse direito”, frisa ainda este pai, sublinhando nada ter “objectivamente contra a disciplina”.
O “antecedente” da Educação Sexual obrigatória
A providência cautelar apresentada por Artur Mesquita Guimarães com o intuito de anular o despacho do ME já foi aceite, segundo o Notícias Viriato. O Ministério ainda se pode opor a essa decisão. Por decidir continua uma acção administrativa regular.
Certo é que o empresário promete levar o processo “até às últimas consequências”, falando em “tiques ditatoriais de quem nos governa”. “O problema não está do meu lado, o problema está em quem quer dominar”, sustenta.
Artur Mesquita Guimarães também realça que “isto tem antecedentes”, frisando que “em 2009 foi introduzida a Educação Sexual obrigatória nas escolas” e considerando que “foi já uma tentativa de invasão das competências educativas dos pais”.
O empresário refere que desde essa data que os seus filhos mais velhos “não participaram nas aulas de Educação Sexual”. “Não estamos a falar do aparelho reprodutor porque isso é Biologia, é Ciência, não tem problema nenhum”, mas “quando estamos a falar do acto sexual em si, do valor da sexualidade é que já é um problema de consciência“, diz.
“Não é o Estado que nos vai dizer como vivemos a sexualidade”, considera ainda.
A DGE define que “a educação sexual em meio escolar tem carácter obrigatório e destina-se a todos os alunos que frequentam estabelecimentos de ensino básico e secundário da rede pública”. Contudo, um estudo divulgado pelo ME, em 2019, concluiu que a maioria das escolas não está a cumprir esta Lei, considerando que num terço delas, ao nível do Secundário, a Educação Sexual não é sequer ministrada, enquanto apenas 36% dos estabelecimentos dedicam as 12 horas anuais de carga horária prevista ao tema.
[sc name=”assina” by=”SV, ZAP”]
Ser soberano significa estar contra a lei? Desde quando é que um pai, para ser soberano, escolhe as disciplinas que o filho deve ou não frequentar na escola? Estamos todos doidos ou queremos fazer deste país uma república das bananas, maior do que já é? Vamos reflectir antes de emitir opinião!!É isso que o bom senso dita!!